Por: Sérgio Sant’Anna*
“Todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira.” A célebre frase de Liev Tolstói, presente na obra Anna Kariênina, parece ecoar diariamente pelos corredores das escolas brasileiras. O que antes era problema do lar, diálogo de mesa ou responsabilidade dos pais, agora desembarca na sala de aula como se o professor fosse terapeuta, juiz, conselheiro matrimonial e, em muitos casos, substituto afetivo de famílias ausentes. A educação foi terceirizada, e o docente transformou-se em depósito humano das frustrações domésticas.
Em tempos líquidos, como definiu Zygmunt Bauman, as relações tornaram-se frágeis e descartáveis. Pais sem tempo, consumidos pelo excesso de trabalho ou pela própria alienação tecnológica, entregam aos celulares a criação dos filhos e ao professor a tarefa de impor limites que nunca existiram em casa. Quando o aluno grita, agride, desrespeita ou simplesmente não consegue conviver socialmente, a pergunta nunca é “o que aconteceu dentro da família?”, mas “o que a escola fez?”. O mestre virou culpado universal.
Paulo Freire defendia que educar é um ato coletivo, humano e dialógico. Contudo, o diálogo desapareceu de muitos lares. Há pais que comparecem à escola apenas para exigir notas, contestar advertências ou defender atitudes indefensáveis dos próprios filhos. O professor, que deveria ensinar conteúdos, leitura e cidadania, precisa agora mediar crises emocionais, conflitos familiares e traumas que ultrapassam completamente sua formação acadêmica. A sala de aula tornou-se extensão do caos doméstico.
Enquanto isso, a sociedade ainda romantiza a profissão docente. Inspirados por ideais do Iluminismo, muitos defendem a educação como ferramenta de transformação social, mas poucos desejam enxergar o preço cobrado daqueles que sustentam essa transformação. Corrigir provas de madrugada, responder mensagens de pais fora do horário, preencher plataformas intermináveis, planejar aulas nos finais de semana e participar de reuniões intermináveis tornou-se parte da rotina silenciosa do professor contemporâneo. Trabalha-se dentro e fora da escola, quase sempre sem remuneração proporcional.
Hannah Arendt afirmava que a educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumir responsabilidade por ele. O problema é que muitos pais desistiram dessa responsabilidade. Há crianças que chegam à escola sem qualquer noção de respeito, limite ou empatia, porque ninguém lhes ensinou isso em casa. Espera-se que o professor alfabetize emocionalmente, eduque moralmente e ainda apresente excelentes índices pedagógicos. É como exigir florescimento de um jardim enquanto retiram do jardineiro a água, o solo e a luz.

Na literatura brasileira, o Realismo denunciava as hipocrisias sociais escondidas sob aparências elegantes. Talvez Machado de Assis encontrasse vasto material nos grupos de mensagens escolares atuais, onde muitos responsáveis atacam professores por qualquer contrariedade. Há pais que exigem que a escola eduque para o respeito, mas desautorizam o docente diante do filho; reclamam da indisciplina, mas jamais impõem consequências em casa. Querem filhos críticos sem ensiná-los a ouvir, querem disciplina sem oferecer exemplo.
Além da sobrecarga emocional, há a financeira. Salários baixos transformam a docência numa profissão sustentada mais por vocação do que por reconhecimento. Anísio Teixeira dizia que só existirá democracia no Brasil no dia em que a educação for prioridade verdadeira. Entretanto, o professor continua sobrevivendo entre contratos frágeis, jornadas exaustivas e cobranças infinitas. A sociedade aplaude discursos sobre educação, mas hesita quando o assunto é valorização concreta.
O Existencialismo defendia que cada indivíduo é responsável por suas escolhas. No entanto, muitos pais parecem abdicar dessa responsabilidade parental e transferi-la integralmente à escola. Educar não é apenas matricular o filho; é acompanhar, impor limites, ouvir, orientar e, sobretudo, participar. Nenhuma metodologia pedagógica substitui presença afetiva. Nenhum professor, por mais competente que seja, consegue ocupar sozinho o espaço que pertence à família.
Ainda assim, apesar do cansaço e da invisibilidade, o professor permanece. Permanece como quem tenta segurar as estruturas de uma sociedade que insiste em desmoronar sobre seus ombros. Entre pilhas de provas, noites mal dormidas e crises que não lhe pertencem, ele continua ensinando verbos, fórmulas e humanidade. Talvez porque compreenda aquilo que Rubem Alves escreveu certa vez: ensinar é um exercício de imortalidade. Pena que, em pleno século XXI, tantos pais tenham esquecido que educar os próprios filhos também deveria ser.



