Por: Nadia Araujo*
Se você for da mesma safra que eu (anos 90), cresceu ouvindo este termo: “dar certo na vida”. Naquela época, isso significava cursar uma faculdade, acumular títulos como mestrado ou doutorado e conquistar uma profissão que pagasse bem. Esse era o gabarito do sucesso.
Mas as coisas mudaram. Com a ascensão da internet, fomos apresentados a novos meios de “dar certo”. E isso é libertador: novas profissões surgiram, permitindo que as pessoas saíssem da “caixinha” e criando novas possibilidades de vender, criar e acessar coisas e lugares que, muitas vezes, seriam inalcançáveis. Porém, como tudo na vida é dual, essa liberdade trouxe novas pressões.
Como eu disse no texto da semana passada, fica difícil celebrar nossas conquistas comuns perto das “coisas grandiosas” que aparecem no feed o tempo todo. O mesmo vale para a nossa percepção de sucesso. Agora, o “dar certo” vem acompanhado de uma vida luxuosa, de ostentação e a com compra de uma Ferrari aos 19 anos (que o influencer conseguiu através da publicidade de um certo jogo, de um certo felino), coisas que, convenhamos, são “normalmente impossíveis”.
Nesse cenário, enfrentamos dois problemas: a desvalorização do estudo e, pior ainda, a desvalorização das profissões que não exigem um diploma superior, mas que sustentam o nosso dia a dia. Vamos combinar que as profissões que mais deveriam ser valorizadas são aquelas que usamos todos os dias. Afinal, precisamos muito mais do serviço de um padeiro, de um mecânico, de uma manicure ou de um cabeleireiro do que de um produto caro e “meia-boca” lançado por influencers. Parece que, hoje, objetos caros são mais “interessantes” do que anos de estudo, dedicação e experiência.
Mas sabe o que é dar certo de verdade? É você conseguir conviver com tudo isso mantendo suas próprias opiniões e convicções. É quando você genuinamente se conhece, sabe no que é bom e o que te faz feliz. É entender que ter 20 clientes fiéis, que confiam no seu trabalho, vale muito mais do que ter 900 mil seguidores que só estão ali para assistir e, muitas vezes, “gorar” as suas conquistas.
Dar certo é, no fim das contas, ter a liberdade de ser quem você é, sem precisar de ostentação para validar a sua existência. É ter a coragem de assumir que uma vida, embora comum aos olhos dos outros, é extraordinária para você.



