Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**
Há algo de profundamente brasileiro na capacidade de transformar tragédia em espetáculo, vergonha em performance e ignorância em militância. O país que já elegeu coach quântico, astrólogo de gabinete e influencer de cloroquina agora inaugura uma nova fronteira civilizatória: o patriotismo sanitário de supermercado.
A cena é de um surrealismo tão tropical que parece roteiro rejeitado de humor político: adultos, munidos de celular e fervor ideológico, mobilizam campanhas para consumir — e, em versões mais delirantes da seita digital, até ingerir — produtos de limpeza como demonstração de fidelidade política. Não é metáfora. Não é sátira. É apenas o Brasil tentando novamente confundir civismo com intoxicação.
A política brasileira atravessou a fronteira do debate faz tempo. Hoje ela habita um território mais próximo da devoção mística, onde a racionalidade é vista com suspeita e o constrangimento perdeu completamente a função social. O importante já não é compreender a realidade, mas provar pertencimento ao grupo — ainda que isso exija comportamentos que fariam um tio do WhatsApp corar de vergonha.
A pandemia foi o grande vestibular da irracionalidade contemporânea. Enquanto cientistas tentavam salvar vidas, uma parcela do país decidiu declarar guerra ao método científico em nome da fé ideológica. Surgiram curas milagrosas, remédios inúteis vendidos como epopeia patriótica e até a inacreditável defesa da ozonioterapia contra Covid-19 — aquela prática em que pessoas resolveram transformar o próprio corpo numa espécie de escapamento automotivo terapêutico.
Mas o fenômeno não parou na saúde. Ele evoluiu. Vieram então os protestos performáticos, as coreografias constrangedoras, os jejuns patrióticos, as orações para pneus e as manifestações que misturavam infantilização política com delírio coletivo.
Em algum momento da degradação simbólica nacional, adultos passaram a brincar de amarelinha diante de lojas da Havaianas como se aquilo representasse resistência institucional e não apenas um colapso cognitivo em praça pública.
Agora chegamos ao estágio industrial: produtos de limpeza transformados em símbolos ideológicos. A lógica é simples — e assustadora. Não importa o produto, o fato, a ciência ou o ridículo. Se o grupo decidir que detergente virou instrumento de guerra cultural, haverá quem beba espuma com orgulho patriótico e poste selfie ao lado da água sanitária como quem posa diante da bandeira nacional.
O problema não é ser de direita, esquerda ou centro. Democracia pressupõe divergência. O problema começa quando a política substitui completamente a capacidade de pensar. Quando identidade ideológica vira religião emocional, qualquer absurdo passa a ser aceito desde que funcione como senha tribal.
É assim que sociedades adoecem: não apenas pela mentira, mas pela celebração pública da mentira. Não pela ignorância isolada, mas pela transformação da estupidez em valor moral.
O Brasil talvez seja hoje o único lugar do mundo onde o sujeito consegue defender livre mercado, combater “globalistas”, desconfiar de vacina, idolatrar algoritmo e, simultaneamente, acreditar que detergente é instrumento de resistência patriótica. Tudo isso sem sofrer a menor interferência da autoconsciência.
A política deixou de ser espaço de construção coletiva e virou reality show de fanatismo emocional. A verdade já não importa. O ridículo já não constrange. E a vergonha — último freio civilizatório das democracias — desapareceu como papel higiênico em março de 2020.
Mas talvez exista uma utilidade ainda mais estratégica nessa sucessão de delírios patrióticos embalados em espuma de detergente, coreografias vexatórias e guerras culturais de internet: servir como cortina bolha de sabão perfeita.
Enquanto parte da militância transforma produto de limpeza em símbolo ideológico e ocupa as redes com cruzadas performáticas dignas de um hospício algorítmico, o país real segue operando silenciosamente nos bastidores do poder — onde circulam dinheiro, influência e favores muito menos folclóricos e muito mais concretos.
No mesmo Brasil em que cidadãos discutem patriotismo de supermercado, investigações da Polícia Federal apontam que o senador Ciro Nogueira teria recebido pagamentos recorrentes e vantagens do banqueiro Daniel Vorcaro em troca de favores políticos ligados ao Banco Master. Segundo as apurações, até propostas legislativas teriam sido redigidas por interesses privados para tramitar no Senado como se fossem iniciativa pública.
É nesse ponto que o espetáculo revela sua função mais eficiente: quanto mais barulho irracional ocupa o debate público, menos atenção sobra para aquilo que realmente move Brasília. A guerra cultural funciona como entretenimento de massa para distrair uma plateia emocionalmente mobilizada enquanto o verdadeiro jogo acontece longe das hashtags patrióticas.
O sujeito passa o dia brigando por detergente, boicotando sandália, compartilhando vídeo conspiratório e discutindo patriotismo de embalagem, enquanto acordos, emendas, lobby e relações promíscuas entre poder econômico e político seguem atravessando os corredores refrigerados da República sem grande resistência popular.
A política brasileira descobriu que o caos também pode ser método. Transforma-se o eleitor em torcedor raivoso, estimula-se indignação permanente por temas caricatos e alimenta-se uma catarse coletiva contínua. Nesse ambiente emocionalmente saturado, desaparece a capacidade de distinguir o escândalo verdadeiro do teatro produzido para escondê-lo.
E talvez essa seja a imagem mais precisa do Brasil contemporâneo: uma multidão hipnotizada discutindo espuma, enquanto os donos do poder passam a boiada pelo caixa eletrônico da democracia.
Enquanto parte da militância ainda bebe detergente ideológico para tentar ligar o caso Master ao atual governo, a realidade aparece sem filtro: surge áudio de Flávio Bolsonaro pedindo R$ 134 milhões para um filme de autopromoção a Daniel Vorcaro.
No Brasil da política de torcida, fato virou detalhe. O importante é manter a narrativa viva — mesmo que ela faça mais espuma do que sentido.



