Emprego em alta histórica e endividamento recorde expõem nova realidade do consumo
Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**
O Brasil atravessa um momento econômico singular. De um lado, indicadores positivos apontam para um mercado de trabalho aquecido, com taxas de desemprego atingindo níveis historicamente baixos — um feito considerado sem precedentes recentes. De outro, cresce de forma acelerada o número de brasileiros endividados, revelando um contraste que desafia especialistas e autoridades.
Dados recentes mostram que a melhora no emprego tem impulsionado a renda e o consumo. O aumento do poder de compra da população atingiu seu maior patamar desde 2023, reflexo direto da maior inserção no mercado de trabalho e da recuperação gradual da economia. Para muitos analistas, trata-se de um sinal claro de que políticas econômicas vêm surtindo efeito no curto prazo.
No entanto, esse avanço traz consigo uma contradição preocupante. O maior acesso ao crédito e ao consumo não tem sido acompanhado por uma educação financeira robusta ou por mecanismos eficazes de controle do endividamento. Como resultado, famílias brasileiras vêm acumulando dívidas em ritmo recorde.
Um dos fatores mais citados por especialistas para explicar esse fenômeno é a crescente popularização das apostas online, conhecidas como “bets”. Plataformas digitais têm atraído milhões de brasileiros, muitas vezes com promessas de ganhos rápidos e fáceis. Na prática, porém, o efeito tem sido devastador para parte significativa da população, que compromete renda e entra em ciclos de perda financeira.
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tentou avançar com medidas para regulamentar o setor e frear o impacto das apostas sobre a população. As propostas incluíam mecanismos de controle mais rígidos, restrições à publicidade e maior fiscalização das plataformas.
Entretanto, tais iniciativas encontraram resistência no Congresso. Setores políticos ligados ao governo anterior de Jair Bolsonaro, sob influência de interesses do setor de apostas, acabaram não aderindo integralmente às propostas regulatórias. Críticos apontam que a pressão de lobistas contribuiu para o enfraquecimento das medidas, permitindo a continuidade da expansão descontrolada do mercado.
Vale lembrar que a disseminação das apostas esportivas no Brasil ganhou força justamente no período anterior, quando houve abertura regulatória inicial, ainda sem uma estrutura completa de fiscalização. O cenário atual, portanto, é resultado de decisões acumuladas ao longo dos últimos anos.
Para economistas, o Brasil vive hoje um “paradoxo do crescimento”: mais pessoas trabalhando e consumindo, mas também mais vulneráveis financeiramente. O desafio, segundo eles, não está apenas em manter os bons indicadores de emprego, mas em garantir que esse avanço se traduza em estabilidade econômica real para as famílias.
Sem um equilíbrio entre crescimento, regulação e educação financeira, o risco é que os ganhos atuais sejam corroídos por uma crise silenciosa de endividamento — impulsionada, em parte, por um setor que cresce sem freios proporcionais ao seu impacto social.



