sábado, 20 junho, 2026

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Artigo: Em clima de Copa, a República do inimigo imaginário

 

Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**

O Brasil talvez seja o único país do mundo onde um gol da Seleção pode ser comemorado como uma derrota do Partido dos Trabalhadores. A bola entra no gol do Marrocos e, instantaneamente, surge alguém gritando “chupa, PT”. É uma capacidade criativa admirável. Nem os roteiristas mais inspirados conseguiriam estabelecer uma conexão tão improvável.

O episódio protagonizado pelo deputado Sargento Fahur é menos um caso isolado e mais um retrato fiel de uma doença política que se espalhou pelo país nos últimos anos. O bolsonarismo transformou a realidade numa espécie de parque temático da paranoia, onde qualquer acontecimento precisa ser encaixado numa guerra permanente contra inimigos reais, imaginários ou convenientemente inventados.

A lógica é simples. Se chove, o PT perdeu. Se faz sol, o PT perdeu. Se o Brasil marca um gol, o PT perdeu. Se a seleção leva três gols, provavelmente a culpa também é do PT. O importante não é o fato. O importante é preservar a narrativa, como um hamster correndo eternamente dentro da roda do ressentimento.

A situação lembra o clássico episódio do Chapolin Colorado enfrentando uma múmia. O herói cria uma batalha épica contra uma ameaça fantasiosa e depois comemora a própria vitória. A diferença é que o Chapolin fazia humor consciente. Já certos personagens da política nacional parecem ter transformado a fantasia em método de análise da realidade.

O mais curioso é que muitos dos que vivem proclamando que a esquerda está obcecada por política conseguiram politizar absolutamente tudo. Futebol, vacina, escola, ciência, cinema, música, meio ambiente, carnaval, religião, camisa da Seleção e até a marca do detergente que alguém resolve ingerir depois de acreditar em alguma teoria conspiratória compartilhada em grupo de WhatsApp.

Nada escapa. O bolsonarismo criou uma geração de adultos que se comporta como comentaristas de arquibancada presos numa transmissão imaginária da Guerra Fria. A União Soviética acabou, mas alguns seguem lutando bravamente contra ela em 2026, armados com emojis de bandeira e vídeos de trinta segundos.

O problema é que essa infantilização permanente não é apenas ridícula. Ela é funcional. Enquanto a plateia se entretém com provocações dignas de quinta série, assuntos realmente relevantes desaparecem do debate. É a política transformada em truque de mágica: olhem para a fumaça, ignorem o incêndio.

A cada novo episódio, fica mais evidente que o movimento que prometia combater a velha política acabou produzindo algo ainda mais cansativo: uma política baseada na necessidade permanente de fabricar inimigos. Porque sem inimigo não existe indignação. Sem indignação não existe engajamento. Sem engajamento não existe culto.

Por isso um gol não pode ser apenas um gol. Precisa ser uma batalha civilizacional. Precisa ser uma vitória contra comunistas imaginários. Precisa ser uma revanche contra fantasmas.

Torna-se uma guerra contra múmias que só existem na cabeça de quem já não consegue distinguir a realidade da própria torcida.

Enquanto isso, o Brasil real — aquele dos empregos, da educação, da segurança, da economia e dos problemas concretos — assiste da arquibancada, esperando o momento em que os adultos finalmente retornem ao campo.

Mas a verdade da partida talvez estivesse longe do gramado. Enquanto alguns comemoravam um gol contra adversários imaginários, outra notícia chamava atenção: o senador Flávio Bolsonaro confessa ter solicitado apoio financeiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para a produção de um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. O detalhe é que o nome de Vorcaro aparece associado a uma das maiores crises e controvérsias recentes do sistema financeiro nacional. E essa é uma partida sem prorrogação, sem VAR e sem distrações possíveis. Porque, por mais que se tente transformar cada lance de futebol em guerra ideológica, a realidade continua cobrando resultado. E há jogos em que nem onze jogadores na defesa conseguem evitar a goleada dos fatos…

*Raphael Anselmo é economista.

**Gustavo Girotto é jornalista.

***Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.