sábado, 20 junho, 2026

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Artigo: O triunfo da altivez

 

A coragem de Mendonça venceu a arrogância do decano

Por: Augusto Nunes*

Ministro André Mendonça na sessão da Segunda Turma do STF (16/06/2026) | Foto: Rosinei Coutinho//STF

Gilmar Mendes imaginou que também André Mendonça cairia na armadilha utilizada com sucesso nos embates com Joaquim Barbosa e Luís Roberto Barroso: provocar o oponente com apartes irritantes até que seja rebaixado a bate-boca o que deveria ser um confronto de ideias ou opiniões. Joaquim lembrou aos berros que Gilmar não estava falando com capangas a serviço do latifundiário mato-grossense. Barroso buscou socorro na baixaria erudita: “Você é uma pessoa horrível, uma mistura do mal com atraso e pitadas de psicopatia”, disse ao inimigo que depois virou amigo de infância. Com Mendonça o truque não funcionou.

O que houve na sessão que manteve na cadeia o pai e um primo de Daniel Vorcaro foi o duelo entre um jovem homem da lei e um especialista em soltura de culpados. Se pudesse, Gilmar já teria devolvido o direito de ir e vir aos poucos prisioneiros engaiolados por patifarias vinculadas ao falecido Banco Master. Como até chicana tem limite, o decano resolveu convencer companheiros de turma de que os acusados mereciam a prisão domiciliar. Derrotado por 3 votos a 1 (o dele), já começou a coleta de vícios imaginários que lhe permitirão propor a anulação do processo. A malandragem deu certo com o fim da Operação Lava Jato, assassinada por excesso de êxitos. Deu certo com Lula, transferido da merecidíssima gaiola para a Presidência da República. Por que não recorrer aos mesmos truques para reprisar o triunfo da bandidagem envolvida no escândalo do Banco Master?

Com a serenidade e a firmeza dos que têm razão, o relator do caso no STF avisou que desta vez os chicaneiros e seus fregueses encontrarão no caminho a pedra de bom tamanho: um juiz disposto a enfrentar os torturadores da Constituição e dos códigos legais (além da moral e dos bons costumes). “É importante que nós fiquemos atentos aos fatos, à fundamentação”, começou a provocar Gilmar. Mendonça interrompeu-o: faz questão de publicar suas decisões, sobretudo para que a sociedade possa criticá-las. “Estamos do mesmo lado no que diz respeito ao combate à criminalidade organizada”, recitou Gilmar, que em seguida exigiu respeito à Constituição tratada a socos e pontapés pelos ministros que lidera.

Até recentemente majoritária, essa bancada encolheu. No momento com 10 ministros, o STF está dividido ao meio. Pior: os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, ambos com lama pela linha da cintura desde que foram içados do pântano do Master, zanzam como almas penadas em busca de álibis que não há. Moraes continua colecionando perseguições e perversidades, mas virou uma caricatura do antes temido Primeiro Carcereiro. Ao tentar impedir o naufrágio do benfeitor Daniel Vorcaro, a dupla condenou-se ao abraço do afogado. Toffoli já se declarou impedido de participar de julgamentos relacionados com o escândalo. Moraes precisa explicar de que modo se tornou um colosso do ramo imobiliário. Gilmar saberá daqui a cinco anos que, no Brasil, um ex manda menos que o guarda da esquina.

Na terça-feira, a voz do país que presta foi enfim ouvida no STF. Mendonça fez advertências e revelações especialmente bem-vindas. Não vai admitir, por exemplo, que se tente obstruir com falsidades o avanço das investigações. Não vai transformar o certo em errado nem a mentira em verdade. Não vai prender alguém em busca de delações premiadas. Só os efetivamente culpados serão presos. Contou que um advogado a serviço do bando lhe propôs uma “delação seletiva”. E esbanjou objetividade quando Gilmar enxergou possíveis semelhanças entre as investigações sobre o caso Master e a Operação Lava Jato.

“O que estamos investigando e julgando não é a Lava Jato, mas a maior fraude financeira da história do nosso país, uma das maiores do mundo”, ensinou ao decano. “Aqui há contornos de máfia, contornos de crime organizado, de infiltração no sistema policial. Não tenho medo de combater o crime aplicando a lei. Não tenho medo de absolver quem é inocente.” Seguiu-se o recado pessoal e intransferível: “Não ajo por pressões de mídia, não busco a mídia, não tenho grupos de mídia, não dou entrevistas, não busco ser estrela”. Mendonça incluiu entre as numerosas singularidades do escândalo o suicídio de Luiz Phillipi Mourão, o Sicário. Além de policiais federais, nem todos identificados, a organização criminosa recrutou banqueiros do jogo do bicho no Rio de Janeiro.

Como sabe até o gramado da Praça dos Três Poderes, a grande quadrilha também cooptou figurões do Senado, da Câmara, do empresariado cinco estrelas, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal. “Do jeito que as coisas estão, o polo mais frágil sou eu”, diz Mendonça. “É preciso ter coragem.” Isso é o que não lhe falta. É hora de o país decente mostrar que também lhe sobram apoio e admiração. Os brasileiros honestos foram felizes no clímax da Lava Jato: durante algum tempo, foi possível acreditar que todos se haviam tornado iguais perante a lei. A mais bem-sucedida ofensiva anticorrupção da história foi sufocada quando se aproximou do Supremo. É preciso garantir que Mendonça não seja bloqueado pela elite da bandidagem. Não se pode permitir que a esperança morra mais uma vez.

(Texto originalmente publicado na Revista Oeste)

*Augusto Nunes é jornalista e Integrante do Conselho Editorial de Oeste, foi redator-chefe da revista Veja e diretor de redação do Jornal do Brasil, do Estado de S. Paulo, do Zero Hora e da revista Época. Atualmente, é colunista da revista Oeste e integrante do programa oeste Sem Filtro. Apresentou durante oito anos o programa Roda Viva, da TV Cultura.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.