segunda-feira, 20 abril, 2026

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Crônica: De joelhos

Por: Sérgio Sant’Anna

Durante esta semana em que fui acometido por um derrame no joelho esquerdo, fui forçado a parar minha rotina intensa de trabalho por cinco dias em troca de gelo, remédios fortíssimos para dores e sumiço do coágulo, além de não poder caminhar. E foi nesse momento em que fiquei “de joelhos” e aproveitei para refletir um pouco sobre a minha vida e a do ser humano pós-moderno, essa espécie que hoje habita o Planeta Terra.

Nesta reflexão aproveito para olhar um pouco para minha pessoa e perceber o quanto não olhava mais para este que vos escreve. A rotina de trabalho talvez tenha impedido esse contato que deveria ser diário. Não fui mais narcísico, não me olhava mais no espelho, não observava esta face absorvida pelo tempo. Não tinha tempo. E esse é o discurso da maioria das pessoas. O tempo não tem mais tempo. O tempo passa muito rápido. Não tenho mais tempo para mim. E confesso que é assim. Somos tragados por Cronos, a cronologia segue a mesma, porém fomos aliciados pelo mundo pós-moderno, que só pensa em consumo, gastos, dinheiro e trabalho, que não observamos mais os elementos mais simples que nos compõe, que nos envolve. Aquilo que serviria para nos retirar da rotina. Elevar-nos a um pouco de poesia. Essa simplicidade que os animais irracionais ainda possuem. Esse contemplar o belo. O contato com a natureza que nos rodeia. Fico sempre observando um bem-te-vi que pousa na mesma árvore há cinco anos, canta e durante muito tempo fica a contemplar o horizonte ao sul ao menos que algum barulho o interrompa e peça para que saia. E mesmo o dono cortando aquela árvore tão bela, o pássaro de canto onomatopaico continua a pousar ali. No toco, agora. Só que noto a tristeza em seu olhar, todavia ele não deixa de olhar para o horizonte ao sul e pensar. E você? Quando fez isso? Parou, olhou e contemplou o horizonte, não necessita ser ao Sul…

A vida é muito curta para ser vivida apenas para o mundo comercial, esse acometido pelo capital, capaz dos nos retirar do estado mais belo que a espécie humana possui que é o de se emocionar, se envolver, amar…e notar que você existe, que és importante, e se não cuidares de sua vida, não alimentar sua saúde, outros não farão por ti. Mesmo sabendo que este ou aquele está mal, o ser humano ainda continua individualista, incapaz, mesmo através dos mais sofisticados meios de comunicação, de perguntar como tu estás, se precisa de ajuda, quando retornarás a desgastante rotina de trabalho (as empresas sim, querem saber do seu retorno), o ser humano foi abduzido pelo descaso, pela normalização do que não deveria ser normal. O normal deveria tratarmo-nos de maneira educada, de maneira respeitosa, alinharmo-nos em empatia, desejar o bom-dia com a convicção de que o outro tenha um bom dia ou uma boa semana ou uma boa recuperação. Ao mesmo tempo, é de se pensar o quanto esse outro que convive contigo, mesmo na esfera de trabalho, aqueles que você trata superbem, não esta abarrotado por esse não se olhar. Ora, será que àquele que você clama por um pouco de atenção teve tempo de parar, olhar e absorver a isso que não estava e não está na rotina dele deve ao impacto da alienação do tripalium?

Quando em 2008 passei pela fratura do úmero, perdi os movimentos da mão esquerda, de maneira momentânea, e fiquei paralisado durante seis meses, pude refletir um pouco mais sobre essa nossa relação com o mundo que nos cerca, naquele momento ainda casado e com minha filha maior recém-nascida, pude observar o quão pequeno somos diante deste mundo. Não valemos nada. Nosso dinheiro é ínfimo diante do contato com a morte. Ele não a impede. Assim como a sua soberba, sua avareza, seu individualismo. Com este tu podes morrer só. Podes morrer e deixar seu dinheiro aí…a vida é para ser vivida como clamou o professor em “Sociedade dos poetas mortos”. Carpe diem. Todos nós iremos um dia, mas teremos muito para contar do lado de lá desse horizonte que o bem-te-vi ainda contempla se pudermos ainda viver…

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.