quarta-feira, 22 abril, 2026

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Artigo: Página virada (ou quase)

Lula em alta, Bolsonaro em baixa.

Por: Gustavo Girotto* e Raphael Anselmo**

Na véspera do encontro entre Lula e Donald Trump, em Kuala Lumpur — cenário improvável para o primeiro capítulo do que se anuncia como uma nova diplomacia global —, o ex-embaixador americano Thomas Shannon decidiu encerrar oficialmente a era Bolsonaro. “Página virada”, disse ele à BBC News Brasil, com a serenidade de quem anuncia o fim de uma novela ruim.

Para Shannon, Trump, esse artista da autopreservação, já entendeu o que Taquaritinga (menos nós) demorou a perceber: o investimento em Jair Bolsonaro deu prejuízo. “Por que fracassar de novo quando já se fracassou uma vez?”, ironizou o diplomata, como quem fala de uma ação que despencou na bolsa da história.

A frase veio embalada em verniz diplomático, mas o subtexto era um obituário político. Trump, o ídolo dos populistas de plantão, fez o que faz de melhor — descartou o produto vencido e seguiu para o próximo negócio. O ex-capitão, que um dia acreditou ter um assento cativo na mesa dos poderosos, agora assiste ao banquete de fora, espiando pela janela do presídio domiciliar, entre advogados e ressentimentos.

Lula, por outro lado, chega à Malásia com o crachá da estabilidade pendurado no peito e o prestígio que só a resiliência política confere. O mesmo Trump que um dia flertou com o autoritarismo latino-americano bolsonarista agora precisa conversar com quem, goste-se ou não, representa um país funcional e um governo que voltou a existir. E Shannon, que entende de símbolos, fez questão de deixar isso claro.

Enquanto o Brasil volta a se equilibrar nas mesas multilaterais, os ecos do bolsonarismo ressoam apenas nos porões da internet e nas esquinas de cidades que ainda acreditam que patriotismo é buzina de caminhão e camisa amarela.

Shannon, nomeado por Obama e hoje advogado de causas brasileiras em Washington, sabe que diplomacia é o ofício de dizer “acabou” sem levantar a voz. “Bolsonaro perdeu relevância”, traduziu. E, para quem leu nas entrelinhas, o que ele quis dizer é simples: o mundo anda, e o Brasil — finalmente — voltou a ser levado a sério.

Mas há quem insista em não virar a página. Há quem ainda acredite que o retrovisor é bússola e que o grito de “mito” ressuscita o tempo em que o país confundiu caos com coragem.

Em falando de página virada, quantas décadas mais serão necessárias para Taquaritinga aprender com Trump e, de uma vez por todas, se libertar dessas âncoras que a mantêm encalhada no brejo do atraso — esse lamaçal político onde as mesmas famílias se revezam no poder como se a cidade fosse um feudo hereditário? Quantos carnavais mais teremos de suportar o desfile de medalhões que confundem voto com escritura e cargo público com herança?

Porque, se o mundo já virou a página, Taquaritinga continua lendo o mesmo parágrafo amarelado, com os olhos marejados de nostalgia por um passado que nunca existiu.

Mais 72 horas do bolsonarismo taquaritinguense — tempo suficiente pra prometer o fim da corrupção, arrumar um emprego pra familiar e culpar o comunismo pelo preço do tomate, o pisoteado de Trump —, vermelho demais até para quem entende de ketchup e fake news…

*Gustavo Girotto é jornalista.

**Raphael Anselmo é economista.

***Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.