terça-feira, 28 abril, 2026

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Crônica: Quem matou Odete?

Por: Sérgio Sant’Anna*

Olha só a intimidade. Esta daquele que no ano de 1988 ao lado da  avó (hoje falecida), Carmem Sant’Anna, na véspera do Natal ficamos ansiosos para buscarmos os suspeitos e o real assassino da telenovela que parou o País, “Vale tudo”. Escrita pelo genial Gilberto Braga, que depois escreveria “Celebridades”. Apostamos no Jarbas, motorista, porém fora Leila quem matara a protagonista. Não ganhamos os cinco milhões de cruzeiros na época, todavia pude acompanhar de perto o caos que o Brasil vivia. Música de Cazuza, tão bem interpretada pela tropicalista Gal Costa; elenco dramático de dar inveja a qualquer teledramaturgia de botequim (Beatriz Segal, Sérgio Mamberti, Daniel Filho, Reginaldo Farias, Kássia Kiss, Glória Pires, Regina Duarte, Carlos Alberto Ritelli, entre outros…); parceria entre Gilberto Braga e Daniel Filho. Um arsenal de talentos que resultaria na explosão que fora a  telenovela. Paramos. Parou. A Missa do Galo fora antecipada. A ceia foi um espetáculo. O assunto era quem matou a matriarca. No almoço de Natal também. Todavia, o Brasil só saberia na noite de cinco ou seis de janeiro. Não me lembro da data correta. Com a banana dada por Marco Aurélio, interpretado pelo notável Reginaldo Farias, o Brasil acompanhava a impunidade que assolava-nos. Era o Brasil real narrado pelas telas. A verossimilhança quem nos avisava. O resto não é história porque trinta e sete anos depois, saímos de uma inflação galopante, mas continuamos a viver o caos da impunidade, por isso o retorno de “Vale tudo”, agora com contornos de Manuela Dias.

Apesar das críticas à ousada autora da trama das 21 horas, ela segue modificando a trama, e hoje quando esta crônica estiver estampada no jornal, o Brasil saberá que quem matou a senhora Odete foi…Não arrisco mais. Sei que Manuela colocou alguns suspeitos na mira da Justiça, acabou mandando para o xilindró outros, porém nada como uma autora que sabe blefar quando necessário. É essa a ferramenta do escritor – mentir. Sim. Encantar pelo blefe. Fazer com que o leitor fique matutando. Exercendo o pensar… e a autora da nova versão de “Vale tudo” fez com que o público saísse de sua zona de conforto e retornasse a se perguntar: “Quem matou Odete?”.

Nos colégios que ministro minhas aulas de Redação e Literatura perguntam-me os alunos, assim como muitos já possuem seus acusados; outros querem saber do que falamos; há os que não querem nada. Mas, tudo bem. Telenovela também é Literatura, assim como é repertório sociocultural para Redação. E esta retomada deste clássico da teledramaturgia brasileira traz à tona questões ocultadas, pouco discutidas pela sociedade e que com certeza são caminhos para a busca de uma sociedade mais justa e equânime.

Saberei quem dessa vez assassinou Odete. Espero não me decepcionar, assim como você, meu leitor, e telespectador de “Vale tudo”.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.