quarta-feira, 22 abril, 2026

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Artigo: Do cárcere ao poder

Como o crime saiu dos presídios e chegou ao comando.

Por: Igor Sant’Anna*

Quando o Estado abandona o dever de proteger e educar, o crime assume o papel de governo. O que era para ser um espaço de punição e recuperação tornou-se uma escola do crime.

Nas últimas décadas, os presídios brasileiros deixaram de ser apenas locais de detenção e se transformaram em escritórios do poder paralelo. O que começou como união entre presos contra as injustiças do sistema, evoluiu para algo muito mais perigoso: a estruturação do crime como força política e econômica.

O berço do poder nas prisões

Nos anos 1980 e 1990, a superlotação, o abandono e a corrupção nos presídios criaram o ambiente ideal para o nascimento de facções.

O Comando Vermelho, no Rio, e o PCC, em São Paulo, surgiram com um discurso de “proteção e união” entre os detentos.

Com o tempo, tornaram-se verdadeiros Estados paralelos, com leis próprias, tribunais internos e rede de comunicação que se espalhou pelas ruas.

O domínio das ruas

Quando o Estado se mostrou incapaz de garantir segurança e dignidade, as facções ocuparam o espaço deixado.

Em muitas comunidades, o crime passou a ser a única autoridade presente, pois  impõe regras, resolve conflitos, “emprega” jovens e controla a vida cotidiana.

O poder que nasceu nas celas agora comanda quarteirões, bairros e cidades inteiras.

Do tráfico à política

O dinheiro ilícito começou a circular em empresas, obras públicas e campanhas eleitorais.

Políticos se elegeram com apoio direto ou indireto do crime, seja por financiamento, seja por controle territorial do voto.

O resultado é um Estado capturado, onde o poder público negocia com o poder criminoso e quem perde é sempre o cidadão de bem.

A falência do Estado

O crime chegou ao poder porque o Estado se retirou da vida das pessoas.

Enquanto o governo finge combater o problema com operações pontuais, a raiz da questão, a ausência de educação, valores, oportunidades e justiça verdadeira, permanece intocada. Um Estado que não educa, não protege e não pune de forma justa, acaba governado pelos que dominam o medo.

O preço do silêncio

O crime venceu não pela força, mas pela omissão.

Cada vez que a sociedade se cala, que a política se vende, e que a justiça se curva, o poder do mal se fortalece.

Para reconquistar o país, é preciso restaurar a autoridade moral, a lei, e o respeito aos princípios que sustentam uma nação livre e justa.

O crime saiu dos presídios e chegou ao poder porque faltou Estado, sobrou corrupção e desapareceu o senso de dever.

Não se vence essa guerra  com armas, mas com verdade, coragem e valores.

O combate ao crime começa quando o cidadão comum decide não se vender e o político decide servir e  não se servir.

*Igor Sant’Anna é colaborador de O Defensor.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.