segunda-feira, 25 maio, 2026

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Crônica: Uma metacrônica

Por: Gustavo Antonio Ascencio*

Uma colega de trabalho, vamos chamá-la de Raimunda, assustou-se quando aceitei o seu convite para escrever algo sobre um evento inusitado que acabara de ocorrer na repartição. Ela suspeitava, pelo “meu estilo” , que escrevesse em algum lugar, embora não soubesse de verdade nada a respeito disso. Pois então, quando confirmei que atenderia o seu pedido (apenas para ver sua reação), assustou-se, disse quase que não poderia fazê-lo. É justo. Acredito que Nathaniel Hawthorne apenas escreveu A Letra Escarlate, história que também começa numa repartição pública, por estar distante em dois séculos dos acontecimentos que narrara. Isso se você tomar como verdade o que está sendo dito ali — apenas a título de comparação, farei isso.

Pois bem, não estávamos trabalhando na alfândega de Salém, o ano não era mil oitocentos e alguma coisa. O acaso acabara de acontecer ali, diante de nossos olhos, em 2025, a uma mensagem de Whatsapp de distância para que se proliferasse, em Taquaritinga, cidade em que todo mundo se conhece ao menos em olhar ao cruzar um semáforo, uma faixa de pedestres ou com um “boa tarde” tímido entrando em uma sala de espera. É preciso admitir: sei das limitações contemporâneas que possuo. Minha intenção, desde que comecei a escrever e publicar esses textos, é a de expor cenários, reflexões, tipos e, por que não?, a mim; ao mesmo tempo, preocupo-me em não tornar tais matérias genéricas demais. Caso precise chegar a esse ponto, a história vai para a mesa de bar, relegadas à confiança etílica. Logo, não, não falarei sobre o que ocorrido, aqui. Feliz, Raimunda? Entretanto, isso nos dá uma ótima oportunidade para refletirmos sobre o gênero ao qual me proponho, semanalmente, levar até vocês. Aliás, existe um “vocês”? Vocês estão aí? Ah, esqueçam, essas são perguntas para outra hora, estou divagando.

Como estava dizendo, a crônica. O Dicionário de Gêneros Textuais, de Sérgio Roberto Costa, publicado pela Editora Autêntica, possui um longo e interessantíssimo verbete a respeito desse gênero textual. Impossível discuti-lo todo aqui, mas vejam que divertido: “[…] a crônica é o samba da literatura. É ao mesmo tempo a poesia, o ensaio, a crítica, o registro histórico, o factual, o apontamento, a filosofia, o flagrante, o miniconto, o retrato, o testemunho, a opinião, o depoimento, a análise, a interpretação, o humor. Tudo isso ela contém, é polivalente. Direta e simples como um samba. Profunda como a sinfonia. […] É a literatura do jornal. O jornalismo da literatura. É a pausa de subjetividade, ao lado da objetividade da informação do restante do jornal. Um instante de reflexão, diante da opinião peremptória do editorial” — engula essa, Nossa Palavra, nobre vizinho —  e por aí vai. Como disse, uma beleza de verbete. O samba da literatura…

Bom, sendo assim:

 

Hoje o samba saiu procurando você

Quem te viu, quem te vê

Quem não a conhece não pode mais ver pra crer

Quem jamais a esquece não pode reconhecer

 

*Gustavo Antonio Ascencio é escritor e professor formado em letras na USP.

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