terça-feira, 23 junho, 2026

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Nossa Palavra – Inflação invisível: o peso no prato do brasileiro comum

A inflação brasileira parece ter perdido o brilho das manchetes, mas continua viva — e mais traiçoeira do que nunca. Enquanto os indicadores oficiais sugerem estabilidade, o carrinho de compras das famílias conta outra história. O problema é que a inflação que o povo sente não é a dos gráficos, mas a do prato de cada dia, da feira da esquina e do açougue do bairro. É uma inflação invisível, que não aparece nas estatísticas frias, mas está presente no olhar de quem precisa escolher entre o arroz e o feijão, entre o leite e o café.

Nos últimos meses, o país viveu um aparente alívio econômico. O índice geral de preços arrefeceu, os juros recuaram, e o discurso oficial fala em retomada do crescimento. Contudo, quem vive do salário mínimo, do benefício social ou de bicos sabe que os números não enchem a geladeira. O poder de compra está corroído, e o custo de vida continua escalando, principalmente em setores essenciais: alimentação, transporte e energia.

A verdade é que a inflação de hoje tem outra face — menos visível, mais desigual e profundamente injusta. Ela se esconde nos reajustes silenciosos, nas embalagens menores pelo mesmo preço, nas “ofertas” que disfarçam aumentos sutis. O brasileiro já aprendeu a desconfiar de rótulos que prometem o mesmo produto com “novo formato”, mas pesam menos. A chamada “reduflação” (ou shrinkflation) virou prática comum no mercado, mascarando aumentos e confundindo o consumidor.

E se o bolso sofre, a mesa denuncia. O feijão, base da dieta nacional, já não é item fixo em muitos lares. A carne vermelha, há muito, tornou-se símbolo de luxo. Frutas e legumes variam conforme a estação, mas quase sempre para cima. Enquanto isso, os índices oficiais, ponderados por médias e metodologias complexas, insistem em mostrar uma estabilidade que a vida real desmente todos os dias.

Esse abismo entre estatística e realidade não é novo — mas se aprofunda quando o discurso político tenta usar os números como propaganda. Governos se vangloriam de “controlar” a inflação, enquanto milhões de famílias precisam reinventar o cardápio para sobreviver. A inflação invisível é a mais cruel, porque retira aos poucos o conforto, o sabor e, muitas vezes, a dignidade. Ela se infiltra nas decisões cotidianas, na incerteza sobre o que comprar e na vergonha de não poder oferecer o básico à mesa.

O cenário é agravado pela falta de políticas públicas efetivas de controle de preços e apoio à produção nacional. O agronegócio segue forte na exportação, mas a mesa do trabalhador continua vazia. O país que exporta toneladas de grãos e proteínas é o mesmo que vê seus cidadãos endividados para comprar um litro de leite. Há algo profundamente errado nessa equação — e o erro não está no campo, mas na lógica econômica que prioriza o lucro acima do bem-estar social.

Também é preciso refletir sobre a responsabilidade do setor privado. Grandes redes de supermercados, por exemplo, exercem um papel decisivo na formação de preços. No entanto, poucas se dispõem a discutir margens, reajustes e lucros excessivos. O consumidor, sozinho, tenta resistir, substituindo marcas, reduzindo quantidades, mas sempre perdendo. O que antes era escolha, agora é renúncia.

Enquanto isso, o discurso político e econômico se distancia da vida real. Fala-se em estabilidade, mas a realidade é de instabilidade alimentar. Fala-se em crescimento, mas o que cresce é o endividamento. Fala-se em prosperidade, mas a prosperidade não chega à mesa. A economia de indicadores e relatórios precisa, urgentemente, reencontrar a economia de gente de carne e osso.

Outubro, que marca a reta final do ano, deve ser também o momento da cobrança. É hora de exigir transparência nas políticas de preços, incentivos à agricultura familiar e fiscalização contra práticas abusivas do comércio. O país que deseja crescer não pode ignorar o custo de vida de seu povo. A fome, disfarçada de inflação leve, continua sendo a ferida mais profunda do Brasil.

A inflação invisível precisa ser exposta, nomeada, combatida. Ela não é apenas um fenômeno econômico — é um sintoma de desigualdade, de descuido e de indiferença. E enquanto o povo continuar pagando caro para comer menos, o país não poderá se considerar em desenvolvimento.

Porque o verdadeiro termômetro da economia não está no boletim do Banco Central, nem nos relatórios do IBGE. Está na mesa do brasileiro. E essa mesa continua vazia demais para um país que se diz forte.