Por: Rodrigo Panichelli*
Há posições no futebol que parecem desaparecer como certas canções antigas: ninguém mais as toca, mas quem viveu, jamais esquece. A meia-esquerda é uma dessas notas raras. O cérebro do time. O artista que, mais do que correr, pensava — e fazia os outros correrem por ele.
Não é o 10 clássico que veste a faixa e decide com o chute certeiro. É o meia que cadencia, que arma, que respira o jogo como quem lê poesia em meio à correria da bola. Um jogador que vê o que ninguém mais vê. Paulo Henrique Ganso foi o último dessa linhagem. O último dos moicanos da meia canhota.
Antes dele, vieram maestros que flutuavam no meio-campo com um compasso próprio: Neto, Giovanni, Djalminha, Pita, Edu Manga, Éverton dos anos 80… Cada um, à sua maneira, fazia o jogo parecer mais bonito do que eficiente — e justamente por isso era tão eficiente.
Mas onde foi parar esse meia? Talvez na prancheta. Talvez na base. Ou talvez no medo moderno de errar o passe criativo. Hoje, o “meia” precisa ser “intenso”, “participativo”, “extremo”. Termos bonitos para dizer que ele virou quase um ponta. O menino Estêvão, que encantava nas categorias de base do Palmeiras com a camisa 10 nas costas, já foi deslocado pelo “gênio” Abel Ferreira para o lado. E no Chelsea, sob a modernidade fria dos esquemas europeus, virou quase um atacante de velocidade.
O problema não é o talento. É o modelo. Os treinadores da base formam atletas para o sistema, não para o jogo. O meia-esquerda, o cérebro, o homem do último passe, não cabe mais nos números do 4-3-3. Mas o futebol sem esse jogador é como uma música sem harmonia. Rápida, forte, bem produzida — mas sem alma.
Quem viu um meia-esquerda jogar, de verdade, sabe do que estou falando.
O drible curto, o passe em curva, o olhar calmo antes da genialidade.
O Brasil foi o país que mais produziu artistas da bola — e agora, ironicamente, parece preferir engenheiros.
Tomara que um dia volte.
Nem que seja por teimosia, como um velho vinil tocando uma melodia que ninguém mais grava.
*Rodrigo Panichelli é colaborador d’O Defensr.



