terça-feira, 23 junho, 2026

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Crônica: O disco voador da copa

Por: Sérgio Sant’Anna*

A Copa do Mundo mal começou e os brasileiros já estão divididos entre acreditar na escalação da Seleção, nas promessas dos dirigentes e na notícia mais comentada da semana: um disco voador pretende pousar durante o jogo entre Brasil e Escócia. Convenhamos, depois de tudo o que vimos nos últimos anos, talvez essa seja a notícia mais plausível.

Enquanto os comentaristas esportivos discutem esquemas táticos, os ufólogos discutem rotas interplanetárias. Há quem diga que os extraterrestres escolheram justamente esse jogo porque desejam compreender um fenômeno tipicamente terrestre: como um país de mais de duzentos milhões de técnicos consegue discordar de si mesmo durante noventa minutos.

Os relatos de OVNIs multiplicam-se. No Paraná, luzes misteriosas voltaram a movimentar as redes sociais e até autoridades foram chamadas a se manifestar sobre supostos avistamentos. Nada foi confirmado, mas o mistério continuou alimentando a imaginação popular.

No Brasil, histórias de discos voadores são quase tão antigas quanto as discussões sobre arbitragem. Desde o famoso caso do ET de Varginha, passando pelas luzes de Magé, no Rio de Janeiro, até as misteriosas aparições registradas por pilotos em diferentes regiões do país, sempre há alguém olhando para o céu e jurando que viu algo extraordinário.

Nelson Rodrigues certamente diria que estamos diante de um “complexo de vira-latas interplanetário”. Afinal, passamos décadas esperando visitantes de outras galáxias e, quando eles finalmente aparecem, a primeira pergunta do brasileiro não é sobre tecnologia avançada ou os segredos do universo. É: “Vocês entendem de futebol?”

Imagino a cena. A nave surge sobre o estádio. O árbitro interrompe a partida. Os jogadores olham para cima. Os escoceses pensam que se trata de alguma tradição local. Os brasileiros, por sua vez, sacam os celulares e começam a gravar para postar antes mesmo do pouso.

Do interior da nave descem três seres de olhos enormes. Um deles segura um aparelho luminoso. Outro traz algo parecido com um tablet cósmico. O terceiro apenas pergunta: “Neymar joga hoje?” Ao ouvir a resposta negativa, consulta seus companheiros e comenta: “Então viemos na Copa errada.”

O filósofo Platão acreditava que o ser humano vivia cercado por sombras e ilusões. Se estivesse vivo, talvez passasse o dia tentando explicar se o disco voador é real ou apenas mais uma projeção da caverna digital chamada rede social.

Já Arthur Schopenhauer, sempre pessimista, provavelmente afirmaria que os extraterrestres atravessaram anos-luz apenas para descobrir que a humanidade continua discutindo os mesmos problemas: guerras, desigualdade, corrupção e quem deve bater o próximo pênalti.

Enquanto isso, os torcedores cantam “Tocando em Frente”, de Almir Sater, porque “cada um de nós compõe a sua história”. Os alienígenas anotam tudo em seus relatórios. Talvez estejam preparando uma tese sobre a estranha capacidade humana de transformar qualquer crise em assunto de mesa de bar. Quando a nave finalmente pousa no gramado, surge o momento mais aguardado. O comandante extraterrestre dirige-se ao microfone e declara que viajou milhões de quilômetros para entregar uma mensagem à humanidade. O estádio inteiro silencia. O mundo prende a respiração.

Então ele diz: “Viemos em paz. Mas, antes de salvar o planeta, gostaríamos de entender uma coisa: por que vocês acreditam mais em disco voador do que em promessa de dirigente de futebol?” Nesse instante, brasileiros e escoceses se unem em aplausos. Afinal, algumas verdades são universais.

E assim termina mais uma Copa do Mundo. Talvez os extraterrestres voltem para casa levando dúvidas sobre nossa espécie. Nós continuaremos aqui, olhando para o céu, discutindo futebol, esperando o próximo OVNI e cantando, como na velha canção: “Ando devagar porque já tive pressa”. Porque, no fundo, o brasileiro sabe que a realidade às vezes consegue ser muito mais fantástica do que qualquer disco voador.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.