terça-feira, 25 agosto, 2026
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Jogando Limpo – Quando o futebol brasileiro perde para o futebol brasileiro

Por: Rodrigo Panichelli*

Neste fim de semana, assistindo a mais uma rodada do Brasileirão, bateu uma saudade da Copa do Mundo.

Não da Copa pelo hino, pelas bandeiras ou pela obrigação de torcer pela Seleção.

Saudade do futebol.

Da bola bem tratada. Da jogada pensada. Do volante que sabe sair jogando. Do meia que enxerga antes. Do atacante que resolve. Da disputa tática que faz a gente ficar duas horas diante da televisão sem lembrar de olhar o celular.

Aí vem a temporada europeia.

E, com ela, uma constatação que começa a incomodar.

Com as transmissões cada vez mais acessíveis pelo YouTube, fica mais fácil assistir aos grandes campeonatos europeus. E então aparece aquela pergunta que nenhum torcedor gostaria de fazer:

O que eu vou assistir: Barcelona x Elche ou Palmeiras x Vasco?

Chapecoense x São Paulo ou Paris Saint-Germain x Rennes?

Não deveria ser uma escolha tão difícil.

Mas está sendo.

Não porque o futebol brasileiro deixou de ter bons jogadores. Muito pelo contrário.

Temos excelentes jogadores.

O problema é que boa parte deles está lá.

É só olhar para os grandes clubes europeus.

Vinícius Júnior, Rodrygo, Raphinha, Gabriel Martinelli, Savinho, Bruno Guimarães, João Pedro, Endrick e tantos outros.

O Brasil continua produzindo jogador.

E como produz!

Talvez o que estejamos tendo dificuldade de produzir na mesma proporção seja futebol.

Não é a mesma coisa.

E aqui está uma das maiores ironias do nosso futebol:

O brasileiro continua sendo protagonista do melhor futebol do mundo, mas muitas vezes não consegue fazer o melhor futebol no Brasil.

Enquanto isso, o torcedor brasileiro se acostumou a jogos picotados, excesso de paralisações, equipes que demoram para acelerar, partidas em que a bola parece mais uma coadjuvante do que a protagonista.

E antes que alguém diga que estou desvalorizando o Brasileirão, não estou.

O campeonato brasileiro continua sendo um dos mais competitivos do mundo.

Talvez esse seja justamente o problema.

Competitivo não é necessariamente sinônimo de bem jogado.

Uma partida pode ser equilibrada e ruim. Pode terminar 0 a 0 e ser maravilhosa, ou pode terminar 4 a 3 e ser uma pelada.

O que sentimos falta é daquele futebol que nos faz assistir ao jogo pelo prazer de assistir ao jogo.

E talvez seja por isso que a chegada de mais transmissões europeias ao YouTube seja tão interessante.

Porque agora o torcedor brasileiro tem mais opções.

E quando o consumidor tem opção, ele compara.

Talvez a maior ameaça ao Brasileirão não seja a Premier League, nem La Liga e nem a Champions.

A maior ameaça é o torcedor descobrir que pode escolher.

E o futebol brasileiro precisa torcer para que, diante dessa escolha, ele continue escolhendo o nosso futebol.

Porque talento nós temos.

Paixão também.

Torcida, então, nem se fala.

Só falta fazer a bola falar um pouco mais.

E quando ela fala, não precisa de tradução.

Jogando Limpo.

* Rodrigo Panichelli é apaixonado por futebol e colaborador de O Defensor.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.