Por: Sérgio Sant’Anna*
Confesso que me preocupa o futuro das próximas gerações. Preocupa-me observar tantos jovens e adultos caminhando pelas ruas com os olhos fixos nas telas, mas o coração perdido em um labirinto de angústias que quase ninguém percebe. Preocupa-me, sobretudo, o descaso de uma sociedade que ainda insiste em chamar de “frescura”, “fraqueza” ou “falta de Deus” aquilo que a ciência, a psicologia e a psiquiatria há muito reconhecem como sofrimento psíquico real. Enquanto banalizamos a dor alheia, vidas continuam sendo interrompidas por um silêncio que grita.
Vivemos em uma época paradoxal. Nunca estivemos tão conectados, e, ao mesmo tempo, tão distantes uns dos outros. As redes sociais multiplicam sorrisos editados, enquanto escondem lágrimas verdadeiras. O filósofo Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, alerta que o excesso de desempenho e a necessidade constante de provar valor produzem indivíduos exaustos, incapazes de acolher a própria vulnerabilidade. Em uma cultura que exige felicidade permanente, admitir tristeza parece tornar-se um pecado.
Os números confirmam aquilo que muitos preferem ignorar. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 700 mil pessoas morrem por suicídio todos os anosno mundo, fazendo dele uma das principais causas de morte entre jovens de 15 a 29 anos. No Brasil, dados do Ministério da Saúde revelam crescimento preocupante das taxas nas últimas décadas, especialmente entre adolescentes e adultos jovens. São estatísticas frias, mas cada número representa uma história interrompida, uma cadeira vazia à mesa e uma família tentando compreender o incompreensível.
Penso que talvez estejamos falhando naquilo que o filósofo Martin Buber chamava de encontro genuíno entre o “Eu” e o “Tu”. O outro deixou de ser presença para tornar-se apenas uma fotografia, uma curtida ou um comentário superficial. Perguntamos “como você está?” esperando ouvir apenas “está tudo bem”. Quando a resposta é diferente, muitas vezes não sabemos permanecer.
Sigmund Freud, ao investigar os conflitos da mente humana, mostrou que grande parte de nosso sofrimento permanece escondida nas profundezas do inconsciente. Décadas depois, Carl Gustav Jung lembraria que aquilo que não enfrentamos dentro de nós acaba dirigindo a nossa vida como se fosse destino. Já o psiquiatra e sobrevivente dos campos de concentração Viktor Frankl afirmava que quem encontra sentido para viver suporta até mesmo as maiores adversidades. Talvez nossa missão, enquanto sociedade, seja justamente ajudar as pessoas a reencontrarem esse sentido quando elas já não conseguem enxergá-lo sozinhas.
A psicóloga Ana Beatriz Barbosa Silvafrequentemente destaca que transtornos mentais não são falta de caráter nem ausência de força de vontade. São condições que exigem acolhimento, diagnóstico e tratamento. Ainda assim, quantas vezes ouvimos frases como “isso passa”, “é só reagir” ou “você tem tudo para ser feliz”? Como se a dor obedecesse à lógica da razão.
Lembro-me da canção “Tocando em Frente”, de Almir Sater e Renato Teixeira, quando diz: “Cada um de nós compõe a sua história.”Mas há pessoas que, em determinado momento, deixam de acreditar que ainda possam escrever novos capítulos. Não lhes falta coragem; falta-lhes esperança. E esperança não nasce de discursos prontos, mas da presença verdadeira de quem decide permanecer ao lado.
O escritor Guimarães Rosa escreveu que “o que a vida quer da gente é coragem”. Contudo, poucas coragens são tão difíceis quanto pedir ajuda. Em uma sociedade que idolatra a autossuficiência, admitir sofrimento parece sinônimo de derrota. Entretanto, a verdadeira bravura talvez esteja justamente em dizer: “Eu não estou bem.”
Também me vem à memória um verso de Gonzaguinha em “O que é, o que é?”: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz.”Quantas pessoas gostariam apenas de voltar a sentir a leveza contida nesses versos? A depressão e outros transtornos mentais roubam justamente essa capacidade de experimentar alegria, tornando o cotidiano um peso quase insuportável.
O sociólogo Émile Durkheim, em sua obra clássica O Suicídio, demonstrou que esse fenômeno não pode ser explicado apenas por fatores individuais. A maneira como a sociedade se organiza, acolhe ou exclui seus membros influencia diretamente esse desfecho. Seu pensamento continua atual: combater o suicídio também significa fortalecer vínculos sociais, familiares e comunitários.
Talvez estejamos ensinando matemática, gramática e tecnologia, mas esquecendo de alfabetizar emocionalmente nossas crianças e adolescentes. A escola, a família e a comunidade precisam aprender que saúde mental também é educação. Ensinar alguém a reconhecer emoções, pedir ajuda e ouvir sem julgamentos pode salvar vidas com a mesma eficácia de muitos tratamentos.
Rubem Alves dizia que “há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas”. Gostaria que também existissem lares que fossem asas, amizades que fossem asas e comunidades que fossem asas. Lugares onde ninguém tivesse medo de revelar suas dores por receio de ser ridicularizado ou rotulado como fraco.
A música brasileira parece compreender aquilo que muitas vezes esquecemos. Em “Dias Melhores”, da banda Jota Quest, ouvimos: “Dias melhores pra sempre”. Não se trata de uma promessa ingênua de felicidade contínua, mas da lembrança de que nenhuma dor permanece exatamente igual para sempre. Com apoio adequado, tratamento profissional e uma rede de afeto, é possível reconstruir caminhos que pareciam definitivamente perdidos.
Não podemos romantizar o sofrimento nem transformar o suicídio em tabu. Precisamos falar sobre saúde mental com responsabilidade, combater preconceitos e incentivar a busca por ajuda especializada. Psicólogos, psiquiatras, familiares, professores, amigos e toda a sociedade compartilham a responsabilidade de construir ambientes mais acolhedores. Afinal, uma conversa sincera, um abraço ou uma escuta sem julgamentos podem representar o primeiro passo para impedir uma tragédia.
Ao terminar estas linhas, continuo preocupado com as futuras gerações, mas também cultivo uma esperança. Espero que chegue o dia em que ninguém mais confunda doença com fraqueza, depressão com preguiça ou sofrimento com frescura. Que possamos aprender a olhar nos olhos uns dos outros antes que seja tarde demais. Porque, no fim das contas, talvez a maior prova de humanidade seja convencer alguém de que sua história ainda merece continuar sendo escrita.



