quinta-feira, 5 março, 2026

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Crônica: O professor não ocupa manchetes

Por: Sérgio Sant’Anna

Em tempos nos quais a pressa parece reger o compasso da vida, adentrando à máxima da modernidade líquida de Bauman, ser professor é, antes de tudo, um ato de resistência. Enquanto o mundo exige respostas instantâneas, flashs para o Instagram, posts para as redes sociais, o docente insiste na lentidão fértil do pensamento, num processo metafórico semelhante à gravidez. Recordo-me de Paulo Freire, que defendia a educação como prática da liberdade; afinal, ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para a sua produção. Assim, entre lousas digitais e cadernos rabiscados, o professor segue como quem semeia em solo incerto, acreditando, ainda assim, na colheita.

Há algo de socrático em cada sala de aula. Tal qual Sócrates, o professor pergunta mais do que responde, provoca mais do que afirma. A maiêutica renasce quando um estudante, depois de muito silêncio, descobre que a resposta sempre esteve dentro de si. Nesse instante, não há aplausos nem plateias, apenas o brilho discreto da compreensão — e, convenhamos, poucas conquistas são tão grandiosas quanto essa epifania cotidiana.

Entretanto, ser professor também é enfrentar as sombras da caverna. Ao lembrar a alegoria de Platão, percebe-se que ensinar é convidar o outro a sair das ilusões e encarar a luz, ainda que ela ofusque. Somos vaga-lumes em meio a escuridão proporcionada por essa onda avassaladora de ignorância (lembrei-me aqui de Manoel de Barros e sua obra “Livro das Ignorãnças). Nem todos desejam abandonar as sombras confortáveis; contudo, o educador permanece à porta, paciente, sustentando a esperança de que mais alguém ouse atravessar o limiar do desconhecido.

E como não evocar Aristóteles, para quem a virtude se constrói pelo hábito? O professor sabe que o aprendizado não floresce em um único dia, mas na constância dos encontros. Aula após aula, ele tece valores, disciplina e senso crítico, como quem borda, fio a fio, o caráter de uma geração. Não raro, seus ensinamentos só serão plenamente compreendidos anos depois, quando o ex-aluno, já adulto, perceber que aquela lição ultrapassava o conteúdo programático.

Na literatura, a figura do mestre também encontra eco. Machado de Assis revelou, em suas narrativas, as complexidades da alma humana; Clarice Lispector mergulhou nos abismos do existir. O professor, à sua maneira, transita entre essas dimensões: ensina gramática, mas também ensina humanidade; explica fórmulas, mas igualmente decifra silêncios. Ele compreende que educar é formar leitores do mundo, como já sugeria Freire, e não apenas decifradores de palavras.

Por isso, quando se fala da profissão docente, fala-se de uma missão que ultrapassa salários e calendários. Em cada gesto paciente, em cada correção cuidadosa, reside a convicção de que o conhecimento transforma destinos. Se, como dizia Immanuel Kant, o homem é aquilo que a educação faz dele, então o professor é, silenciosamente, arquiteto de futuros. E, embora raramente ocupe manchetes, é ele quem sustenta, com discrição e coragem, a possibilidade de um amanhã mais lúcido e mais humano.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.