A redação no ENEM como exercício de pensamento e transformação social
Por: Sérgio Sant’Anna*
Em uma sociedade na qual as informações circulam com velocidade extraordinária, mas nem sempre são compreendidas com a profundidade necessária, escrever uma boa redação tornou-se um desafio que ultrapassa os limites de uma prova escolar. No Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), a produção dissertativo-argumentativa exige muito mais do que o domínio da gramática normativa: requer leitura crítica da realidade, capacidade de estabelecer relações entre diferentes áreas do conhecimento e habilidade para transformar informações em argumentos consistentes. Nesse contexto, defendo que a leitura e a prática sistemática da escrita constituem os pilares fundamentais para a formação de estudantes capazes de pensar, argumentar e participar ativamente da sociedade.
Em primeiro lugar, é necessário compreender que a redação do ENEM não deve ser encarada como uma fórmula pronta, na qual basta memorizar introduções, encaixar citações e reproduzir propostas de intervenção previamente elaboradas. Embora determinadas estratégias estruturais possam auxiliar o candidato, a verdadeira qualidade textual depende da autonomia intelectual. O filósofo René Descartes, ao propor o exercício da dúvida metódica, demonstrou a importância de questionar aquilo que se apresenta como verdade. De maneira semelhante, o estudante precisa desconfiar das respostas superficiais, investigar as causas dos problemas sociais e construir um posicionamento fundamentado. Afinal, argumentar não significa apenas manifestar uma opinião, mas justificar racionalmente por que ela merece ser considerada.
Sob esse viés, a leitura assume papel indispensável na preparação dos candidatos. Ler não significa somente decodificar palavras ou concluir capítulos de um livro; significa interpretar discursos, reconhecer diferentes perspectivas e compreender as contradições do mundo. Em Dom Casmurro, Machado de Assis, representante do Realismo brasileiro, constrói uma narrativa marcada pela ambiguidade e pela perspectiva subjetiva de Bentinho. Ao colocar em dúvida a confiabilidade do narrador, o escritor convida o leitor a desconfiar das aparências e a examinar criticamente aquilo que lhe é apresentado. Essa experiência literária aproxima-se de uma competência essencial à redação: analisar informações, questionar argumentos e evitar conclusões precipitadas.
Além disso, a literatura brasileira oferece um repertório extraordinário para a compreensão das desigualdades históricas e sociais do país. No Pré-Modernismo, Lima Barreto denunciou o racismo, o preconceito e as contradições da sociedade brasileira, especialmente em obras como Triste Fim de Policarpo Quaresma. Posteriormente, o Modernismo, impulsionado pela Semana de Arte Moderna de 1922, procurou romper com padrões tradicionais e construir novas formas de interpretar a identidade nacional. Já a literatura de Graciliano Ramos, em Vidas Secas, expôs a pobreza, a exploração e os efeitos da seca sobre as populações marginalizadas. Essas obras não devem ser utilizadas na redação apenas como nomes consagrados, mas como instrumentos de interpretação da realidade, capazes de fundamentar discussões sobre exclusão social, desigualdade regional, cidadania e direitos humanos.
Outrossim, os movimentos literários demonstram que a produção artística está profundamente relacionada às transformações históricas. O Romantismo brasileiro participou da construção de uma identidade nacional, enquanto o Realismo questionou as idealizações e revelou conflitos sociais e psicológicos. O Naturalismo, por sua vez, explorou a influência do meio e das condições materiais sobre os indivíduos, embora suas concepções deterministas precisem ser compreendidas criticamente à luz do conhecimento contemporâneo. Ao conhecer esses movimentos, o estudante amplia sua capacidade de relacionar literatura, sociedade e história, desenvolvendo um repertório que pode ser mobilizado com pertinência em diferentes propostas de redação.
Entretanto, seria um equívoco restringir o repertório sociocultural aos livros e aos autores tradicionalmente estudados nas escolas. A música, por exemplo, constitui uma importante forma de interpretação da experiência humana. Em Construção, Chico Buarque retrata a desumanização do trabalhador e a indiferença diante de uma morte que se perde na rotina urbana. A canção permite refletir sobre precarização do trabalho, desigualdade social e invisibilidade dos indivíduos. Já Que País É Este, da Legião Urbana, expressa indignação diante das contradições políticas e sociais brasileiras. Em outra perspectiva, Apesar de Você, também de Chico Buarque, tornou-se emblemática da resistência à opressão durante a ditadura militar. Tais referências demonstram que a música pode funcionar como documento histórico, manifestação política e instrumento de crítica social.
Da mesma maneira, a Filosofia oferece fundamentos para a construção de argumentos mais profundos. Platão, na alegoria da caverna, presente em A República, apresenta a passagem da ignorância para o conhecimento como um processo de libertação intelectual. Essa reflexão dialoga diretamente com a importância da educação e da leitura na formação de cidadãos críticos. Por sua vez, Paulo Freire, em A importância do ato de ler, estabelece uma relação fundamental entre a leitura da palavra e a leitura do mundo. Para o educador brasileiro, compreender a realidade é parte essencial do processo de alfabetização e conscientização. Dessa maneira, ler não é um exercício passivo: é uma oportunidade de reconhecer problemas, questionar injustiças e compreender o lugar que ocupamos na sociedade.
Também a história da arte pode enriquecer significativamente a produção textual. A pintura Guernica, de Pablo Picasso, representa os horrores da Guerra Civil Espanhola e transforma a linguagem artística em denúncia da violência. O quadro permite estabelecer relações com temas como conflitos armados, direitos humanos, intolerância e sofrimento das populações civis. No Brasil, Operários, de Tarsila do Amaral, retrata a diversidade de rostos que compõem o universo do trabalho industrial, possibilitando reflexões sobre industrialização, diversidade étnica e relações de trabalho. Já A persistência da memória, de Salvador Dalí, associada ao Surrealismo, desafia as percepções convencionais sobre o tempo e a realidade. Essas referências revelam que a arte também ensina a interpretar símbolos, reconhecer perspectivas e compreender as inquietações de diferentes épocas.
Todavia, possuir um repertório extenso não significa, necessariamente, produzir uma redação de excelência. Um dos problemas recorrentes na preparação para o ENEM é a utilização de citações decoradas, inseridas artificialmente nos parágrafos, sem uma conexão efetiva com o tema. Uma referência sociocultural só cumpre sua função argumentativa quando é pertinente, corretamente contextualizada e acompanhada de uma explicação que demonstre sua relação com a tese defendida. Citar Paulo Freire, Machado de Assis ou Picasso não garante, por si só, uma pontuação elevada. O que importa é a capacidade de transformar o conhecimento em raciocínio, estabelecendo relações claras entre a referência mobilizada, o problema discutido e a conclusão desenvolvida.
Nesse sentido, a prática da escrita precisa ocupar um lugar permanente na rotina dos estudantes. Escrever é um processo que envolve planejamento, elaboração de hipóteses, organização de ideias, escolha vocabular, construção de períodos e revisão. Assim como um músico aperfeiçoa sua interpretação por meio de exercícios constantes, o estudante desenvolve a competência textual mediante a produção frequente de diferentes textos. A primeira versão de uma redação raramente representa seu potencial máximo. É na releitura, na identificação de falhas argumentativas e na reformulação de trechos que o autor aprende a reconhecer suas dificuldades e a aperfeiçoar a própria expressão. Por isso, corrigir uma redação não deve significar apenas apontar erros, mas compreender os caminhos necessários para superá-los.
Ademais, a leitura e a escrita precisam caminhar juntas. Um estudante que lê diferentes gêneros textuais — romances, crônicas, reportagens, artigos de opinião, ensaios filosóficos e textos científicos — passa a reconhecer distintas estratégias de argumentação e organização discursiva. Ao mesmo tempo, a diversidade de leituras amplia o vocabulário, favorece a compreensão de estruturas sintáticas e oferece modelos de construção textual. Nesse processo, a leitura literária merece atenção especial, pois permite entrar em contato com experiências humanas diversas, exercitar a imaginação e desenvolver a sensibilidade diante das injustiças. Ler Carolina Maria de Jesus, por exemplo, em Quarto de Despejo, significa aproximar-se de uma realidade social marcada pela fome, pela pobreza e pela exclusão, sem reduzir a experiência da autora a uma simples estatística.
É igualmente necessário reconhecer que o professor desempenha uma função decisiva nessa trajetória. Mais do que transmitir regras gramaticais ou apresentar modelos de introdução, cabe ao educador incentivar a curiosidade intelectual, propor debates, orientar pesquisas e criar oportunidades para que os estudantes expressem suas ideias com autonomia. Em uma época marcada pela circulação de conteúdos instantâneos e pelo uso crescente da inteligência artificial, torna-se ainda mais importante ensinar os jovens a verificar informações, identificar discursos manipuladores e assumir responsabilidade pelo que escrevem. A tecnologia pode auxiliar na pesquisa e na aprendizagem, mas não deve substituir o esforço intelectual, a reflexão individual e a construção autoral do pensamento.
Diante disso, considero que preparar um estudante para a redação do ENEM significa oferecer-lhe muito mais do que estratégias para alcançar uma nota elevada. Significa contribuir para sua formação como leitor, escritor e cidadão. A prova possui critérios específicos de avaliação, entre eles o domínio da modalidade escrita formal, a compreensão do tema, a organização argumentativa, a utilização de mecanismos de coesão e a elaboração de uma proposta de intervenção que respeite os direitos humanos. Entretanto, o desenvolvimento dessas competências torna-se mais consistente quando está associado a uma formação cultural ampla, à prática regular da escrita e à disposição para compreender os problemas que atravessam a sociedade brasileira.
Portanto, diante da importância da redação no ENEM, defendo que escolas, professores, famílias e estudantes assumam conjuntamente o compromisso de fortalecer a leitura e a produção textual. Às instituições de ensino cabe promover projetos literários, rodas de leitura, debates interdisciplinares e oficinas permanentes de redação; aos professores compete orientar a escrita processual, oferecer devolutivas individualizadas e estimular o uso crítico do repertório sociocultural; aos estudantes, por sua vez, cabe cultivar a curiosidade, ler com regularidade e escrever com disciplina. Não se trata de transformar livros em depósitos de citações nem de converter músicas e pinturas em adornos argumentativos, mas de compreender que cada obra pode ampliar nossa visão de mundo. Afinal, uma redação verdadeiramente consistente nasce quando o conhecimento deixa de ser mera informação acumulada e se transforma em pensamento crítico, expressão consciente e possibilidade de transformação social.




