Por: Sérgio Sant’Anna*
Há vinte e oito anos, entro em sala de aula com a mesma convicção e uma inquietação sempre renovada: ensinar a escrever é, antes de tudo, ensinar a pensar. Mas confesso que, nos últimos tempos, a Redação do ENEM tem exigido não apenas pensamento — exige estratégia, repertório sociocultural produtivo e, sobretudo, uma habilidade quase cirúrgica de atender a critérios. Já não basta escrever bem; é preciso escrever conforme um jogo de regras, em que cada competência vale pontos e cada deslize custa caro. Entre meus alunos, a palavra “estrutura” ecoa como um mantra; o repertorio sociocultural soa como música aos ouvidos discentes. Proposta de Intervenção, a quem trato intimamente como “PI”, tornou-se a mais tocada entre os hits do momento.
Observo, com certo fascínio a obsessão pelas cinco competências. Coesão, coerência, domínio da norma padrão, proposta de intervenção — tudo se tornou quase mecânico. Ensinar a argumentar passou a ser também ensinar a cumprir um protocolo. Às vezes, sinto que formo mais estrategistas do que escritores. Ainda assim, resisto: insisto que há beleza no texto bem construído, mesmo quando ele nasce sob pressão avaliativa.
Neste ano, as tão comentadas notas mil voltaram a ocupar o imaginário coletivo. Muitos alunos chegam com redações-modelo decoradas, conectivos prontos, repertórios que parecem encaixados como peças de um quebra-cabeça. Impressiona a precisão: introduções enxutas, desenvolvimentos paralelos, conclusões com proposta detalhada. Mas me pergunto — e os provoco a pensar comigo — até que ponto essa excelência técnica não esconde uma certa uniformidade de vozes?
Ainda assim, não posso negar: há mérito. As redações nota mil revelam domínio linguístico e uma leitura de mundo que, quando autêntica, emociona. Quando um aluno consegue articular dados, referências filosóficas e uma proposta viável, sinto que há esperança. É nesses momentos que a sala de aula deixa de ser um treinamento para prova e se torna um espaço de formação crítica. E é por isso que continuo. Sorrisos largos quando ultrapassam os 900; telefonemas aos pais quando quase atingem o tão sonhado mil. É emocionante ver os rostos sendo exibidos com aquela nota burilada por anos. Treinamento puro, dedicação.
Quanto às temáticas, o futuro sempre se apresenta como um terreno fértil — e imprevisível. Para 2026, aposto em questões que dialoguem com a tecnologia e suas implicações éticas: inteligência artificial, desinformação digital, limites da privacidade. Também vislumbro debates sobre saúde mental, especialmente entre jovens, e os impactos sociais do esgotamento contemporâneo. O Brasil, afinal, é um país de urgências, e o ENEM costuma capturá-las com precisão.
Outro eixo possível reside nas questões ambientais, mas não de forma genérica. A tendência é que se aprofunde: justiça climática, desigualdade no acesso a recursos naturais, populações vulneráveis diante de desastres. Além disso, temas ligados à cidadania — como participação política, educação midiática e inclusão social — permanecem como apostas consistentes. O aluno que lê o mundo, mais do que o tema, sempre sai na frente.
Ao final de cada ciclo, quando corrijo as últimas redações, percebo que continuo aprendendo. Ser professor de redação há vinte e oito anos é, paradoxalmente, nunca se sentir completamente pronto. Entre exigências e fórmulas, tento preservar aquilo que nenhuma competência avalia diretamente: a autenticidade. Porque, no fundo, escrever bem para o ENEM pode garantir uma nota; mas escrever com verdade ainda é o que forma um sujeito.



