domingo, 19 abril, 2026

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Artigo: A República das narrativas do mais tosco caldo de bolsonarismo

Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**

O debate político brasileiro voltou a se agitar com a repercussão do chamado “caso Master”, episódio que passou a alimentar suspeitas e especulações sobre possíveis irregularidades envolvendo integrantes do Supremo Tribunal Federal. Como costuma ocorrer em períodos de intensa polarização, a discussão rapidamente deixou o terreno árido da apuração factual para se instalar no campo muito mais fértil — e ruidoso — da disputa de narrativas.

Nas redes sociais e em parte do discurso político, a simples hipótese de um escândalo envolvendo ministros do tribunal passou a ser celebrada como uma espécie de triunfo moral. Para determinados grupos, qualquer arranhão na imagem do STF parece suficiente para tentar invalidar decisões relevantes tomadas nos últimos anos — sobretudo aquelas relacionadas aos processos que investigam ataques à ordem democrática.

Essa reação, no entanto, revela algo mais profundo do que uma divergência jurídica. Expõe um vício recorrente do debate público brasileiro: a tendência de transformar crises institucionais em troféus políticos.

Em uma democracia madura, nenhuma instituição está imune a questionamentos. Se houver irregularidades envolvendo autoridades do Judiciário, elas devem ser investigadas com rigor, transparência e sob o devido processo legal. Isso vale para qualquer magistrado, inclusive para figuras centrais do tribunal, como o ministro Alexandre de Moraes, frequentemente citado nas discussões recentes.

Mas existe uma distinção elementar — ainda que convenientemente ignorada por alguns — entre apurar responsabilidades individuais e tentar reescrever decisões institucionais já consolidadas por processos formais, baseados em provas, depoimentos e deliberações colegiadas.

A eventual queda de um ministro, por exemplo, não possui o poder mágico de apagar investigações conduzidas por diferentes órgãos do Estado. A República não funciona por efeito dominó moral.

Esse ponto torna-se particularmente sensível quando se trata dos processos ligados às investigações sobre a tentativa de ruptura institucional após as eleições. Entre os nomes envolvidos está o ex-presidente Jair Bolsonaro, alvo de apurações sobre sua participação em articulações que buscavam questionar o resultado eleitoral e pressionar instituições.

Esses processos não dependem da vontade isolada de uma autoridade. São fruto de um arranjo institucional que envolve Polícia Federal, Ministério Público, perícias, depoimentos e decisões colegiadas dentro do próprio STF. Mesmo que autoridades específicas venham a enfrentar questionamentos no futuro, isso não dissolve automaticamente o conjunto probatório acumulado ao longo das investigações.

Ainda assim, parte do debate público parece disposta a tratar qualquer turbulência institucional como uma espécie de “prova retroativa”: se um personagem do sistema errou — ou pode ter errado — então tudo o que foi produzido naquele ambiente estaria automaticamente contaminado.

É uma lógica sedutora pela simplicidade, mas profundamente incompatível com o funcionamento de instituições complexas. Democracias existem precisamente porque são maiores do que os indivíduos que, temporariamente, ocupam seus cargos.

Há também um componente simbólico inquietante nessa reação: a celebração do desgaste institucional. Em vez de defender investigações sérias e responsabilização individual, prefere-se transformar a hipótese de escândalo em medalha política — como se a corrosão da confiança pública fosse uma vitória estratégica.

O paradoxo é evidente. Para sustentar determinadas posições políticas, passa-se a torcer pelo enfraquecimento das próprias estruturas que garantem eleições, direitos e equilíbrio entre os poderes.

Críticas ao Judiciário são legítimas — e necessárias. O STF, como qualquer instituição republicana, deve ser questionado, debatido e cobrado. O que ultrapassa essa fronteira é o fanatismo que transforma qualquer crise em um argumento absoluto: se um adversário errou, tudo o que ele tocou deve ser descartado.

A democracia, porém, não opera pela lógica das torcidas organizadas. Ela exige algo mais raro no ambiente político contemporâneo: a capacidade de distinguir entre falhas individuais e a validade dos processos institucionais.

Se houver irregularidades no chamado caso Master, que sejam investigadas e punidas com o rigor da lei. Mas imaginar que isso, por si só, invalida decisões centrais relacionadas à defesa da democracia brasileira é menos uma análise jurídica do que um sintoma eloquente do estado de radicalização do debate público no país.

*Raphael Anselmo é economista.

**Gustavo Girotto é jornalista.

***Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.