Por: Gustavo Antonio Ascencio*
Nessas últimas férias, resolvi que seria mais tolerável aos que compartilhavam uma viagem comigo para o Guarujá se levasse em minha mala, além do protetor solar, algumas cuecas e três camisetas, ao menos dois livros. Os escolhidos foram “Informações sobre a vítima”, de Joaquim Nogueira, e “Seis passeios pelos bosques da ficção”, de Umberto Eco, ambos da Companhia das Letras.
Comecei por Joaquim Nogueira (seria minha primeira leitura desse autor) e estava gostando, no entanto qual não foi minha surpresa quando, assim que terminei a página de número 64 e meus olhos partiram de seu rodapé para o topo da seguinte, dei-me conta de que a história havia sofrido de uma supressão gigantesca de 33 páginas. Isso mesmo, de acordo com o número em seu final, lia agora a página 97 e, como consequência lógica disso, a sintaxe, interrompida, era outra, formando um período esquizofrenicamente diferente; já o enredo me apresentava uma cena completamente distinta da que vinha acompanhando. Bem, sendo um romance policial, decidi investigar o sumiço das laudas e folheei o exemplar até o final: nada. Elas haviam desaparecido sem deixar pistas como marcas de rasuras ou falhas de impressão. A exemplo de um bom filme noir estrelado por um frustrado detetive ante o inescrutável, dei o caso por encerrado e resolvi seguir a vida. Parti então para a segunda leitura.
Uma dica: não leia um livro de teoria literária de Umberto Eco durante suas férias de verão. Não demorei a notar que uma coisa não combina muito bem com a outra. Definitivamente não é o tipo de leitura que se faça com os vincos dos dedos do pé incrustados de areia. Sendo assim, resolvi postergá-la para quando retornasse, dali cinco dias. Em resumo, no que se entende por minhas intenções de leitura durante uma viagem à praia, falhei copiosamente.
As soluções foram: reclamar com a distribuidora que prontamente me informou estar enviando uma nova cópia de “Informações sobre a vítima” (não sem antes minha própria ansiedade ter me feito comprar um novo exemplar do livro, fazendo com que agora eu tenha os mesmos dois títulos a caminho de minha casa); e recomeçar a leitura de Umberto Eco no silêncio do meu escritório, durante as manhãs que ainda me restam de férias.
Veja, “Seis passeios pelos bosques da ficção” trata das seis conferências Norton que Umberto ministrou em 1993, na Universidade de Harvard, em Cambridge. Ainda estou avançando, finalizei a segunda conferência hoje, talvez volte a desenvolver mais sobre o livro quando terminá-lo — tenho alguns pontos que gostaria de compartilhar para além das intenções mais triviais desta presente crônica. Para esse momento, portanto, basta que mencione um deles.
Umberto Eco defende a necessidade de uma boa história às vezes ser rápida, elíptica. Desenvolve que o texto de ficção pode se dar ao luxo de omitir algumas coisas, trata-o como uma máquina preguiçosa pronta para ser completada pelo leitor, principalmente quando cuja leitura está sendo feita pelo leitor-modelo (o tipo ideal que uma obra almeja ter como colaborador, aquele leitor que faz anotações, retoma pontos importantes, esforça-se para entender as estratégias narrativas que estão nas entrelinhas). Ora, agora entendo que possa ter feito injustiça com Joaquim Nogueira, coitado. Talvez a subtração das 33 páginas tenha sido, na verdade, propositais elipses a constituírem a estratégia narrativa do autor, talvez o preguiçoso tenha sido eu que, entre um banho de mar e outro, não soube cumprir o meu papel. Falhei como leitor-modelo? Não sei, irei aguardar os dois livros idênticos chegarem, para compará-los todos os três juntos e aviso vocês. Aliás, alguém interessado em um exemplar? Terei-os de sobra.



