segunda-feira, 20 abril, 2026

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Capítulo Zero

Por: Lucas Fanelli*

Olá caros leitores, espero que estejam todos bem. Vocês já reparam o poder que as palavras possuem em um livro? Como eu já falei uma vez aqui, essa é a maior magia que podemos ter, o poder da linguagem e o poder das palavras. O livro, ele não é apenas capaz de te transportar para outro mundo e te mostrar outra perspectiva, ele também pode te fazer conivente de um crime. O texto de hoje contém uma indicação de leitura que pode conter gatilhos de abuso.

Eu já indiquei Misery, louca obsessão do Stephen King e apesar de se tratar de um livro que contém vários crimes, não é bem esse sentimento que estou falando. Quero me referir à um sentimento mais visceral, escrito de uma forma em que no momento em que você está lendo a cena que se cria é moralmente repulsiva, mas te faz continuar lendo com o nariz torto como se o livro exalasse o cheiro pútrido que aquelas palavras carregam.

Esse é o sentimento que tive ao ler A garota da casa ao lado de Jack Ketchum, portanto essa será minha indicação de leitura dessa semana. Até ler esse livro eu não havia experimentado sentimento tão ambíguo. A leitura é prazerosa no sentido de leitura, mas ela incomoda como se cada palavra impressa ali no papel fossem espinhos que te pinicam a cada passada de olho.

Toda a narrativa piora ao saber que essa ficção foi inspirada em um caso real que aconteceu em Indianápolis nos Estados Unidos em 1965. Existem algumas diferenças entre o caso real e a ficção de Ketchum, por exemplo, no caso real a garota vai para a casa da sua futura algoz como parte de acordo entre o genitor e a mulher, afinal a genitora havia sido presa e o pai pagaria essa mulher para ficar responsável pela garota e a irmã mais nova dela durante um tempo. No livro a personagem principal perde os genitores em um acidente, ficando sob a tutela de sua tia.

Ketchum consegue pegar os elementos mais assustadores e indigestos do caso real e colocar no livro pela perspectiva de um adolescente experienciando aquelas atrocidades e torna o leitor cúmplice de toda a barbárie.

David, que é o adolescente que vamos acompanhar durante a leitura, vive seu verão normalmente até conhecer Meg, uma garota recém chegada na vizinhança. Logo se tornam amigos e passam a andar juntos pelo bairro para aproveitar as férias escolares. David já tinha amizade com os filhos da tia de Meg e também frequenta a nova moradia da garota, local em que os abusos, inicialmente verbais e posteriormente físicos, acontecem.

Com certeza essa não é uma leitura para todos, uma leitura para se distrair e relaxar, mas é uma leitura que instiga, que cutuca, que te faz sair do seu lugar de conforto para ficar, de forma segura, em um lugar incômodo e perigoso. Assim como o julgamento do caso real não respondeu, Ketchum também não traz a resposta da verdadeira motivação para tais atos tão crueis e esse é o gosto amargo que fica ao final de leitura e ao fechar o livro existe um sabor ainda mais amargo como se fosse fel e fica por mais tempo que é tentar entender como ninguém se prontificou em salvar Meg, nem os adolescentes e crianças que participaram de forma ativa ou passiva dos abusos, nem nós como leitores que ficamos de mãos atadas assistindo tudo acontecer.

*Lucas Fanelli é apaixonado por livros e colaborador de O Defensor.