sexta-feira, 9 outubro, 2026
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Crônica: De Antonieta de Barros à mulher do ENEM

Quando a representatividade deixa de ser exceção

Por: Sérgio Sant’Anna*

Há quase três décadas, desde que comecei a ensinar Redação, aprendi que determinados acontecimentos deixam de ser apenas notícias e passam a ser matéria-prima para compreender o Brasil. As eleições de 2026 produziram um desses momentos. A Câmara dos Deputados terá, a partir de 2027, a maior bancada feminina de sua história: 109 mulheres ocuparão 21% das cadeiras da Casa. É um avanço que merece ser celebrado, mas que não pode nos fazer esquecer uma pergunta incômoda: por que, em um país no qual as mulheres são maioria do eleitorado, elas ainda representam uma minoria tão expressiva no espaço de poder?

Se eu estivesse diante de meus alunos preparando-os para o ENEM, provavelmente começaria dizendo: atenção, vestibulando, porque aqui existe repertório sociocultural de sobra. Não basta escrever que “a mulher sofre preconceito”. Isso é constatação, não argumento. É preciso historicizar a desigualdade, compreender suas raízes e demonstrar que a presença feminina na política brasileira resulta de uma longa trajetória de enfrentamento às estruturas sociais, culturais e institucionais que limitaram a participação das mulheres na vida pública.

E eu começaria essa aula por Santa Catarina, porque a história brasileira da representação feminina passa obrigatoriamente por Antonieta de Barros. Nascida em Florianópolis, em 1901, filha de uma mulher negra que trabalhava como lavadeira e doméstica, Antonieta tornou-se professora, jornalista, escritora e política. Em 1934, foi eleita para a Assembleia Legislativa de Santa Catarina, tornando-se a primeira mulher e a primeira deputada negra eleita no Brasil. Sua trajetória mostra ao estudante que gênero, raça, educação e participação política não são temas isolados.

Antonieta não se limitou a ocupar uma cadeira parlamentar. Ela compreendeu que a educação poderia ser instrumento de transformação social. Ainda jovem, criou um curso particular destinado à alfabetização e, ao longo de sua trajetória, defendeu a educação popular, a valorização do magistério e o acesso das mulheres à formação educacional. Em 1948, foi responsável pela lei catarinense que instituiu o Dia do Professor, posteriormente transformado em referência nacional. Portanto, quando o aluno utilizar Antonieta em uma redação, não deverá simplesmente jogar seu nome no texto como quem deposita uma ficha de bingo: deverá relacioná-la à educação como mecanismo de emancipação e à ocupação feminina dos espaços historicamente dominados pelos homens.

Há algo ainda mais poderoso nessa história: Antonieta foi eleita justamente no período em que as mulheres brasileiras começavam a exercer de maneira mais ampla o direito de votar e serem votadas. Em 1937, chegou inclusive a presidir uma sessão da Assembleia Legislativa catarinense, tornando-se, segundo a memória política da Alesc, a primeira mulher a assumir a presidência de uma Assembleia Legislativa no Brasil. Morreu em 1952, mas sua história permanece como uma espécie de ponte entre duas épocas: aquela em que a mulher precisava romper portas para entrar na política e esta, de 2026, em que centenas delas chegam às urnas como candidatas e dezenas conquistam o Parlamento.

Mais de noventa anos depois da eleição de Antonieta, o Brasil continua enfrentando o problema da sub-representação feminina. A eleição de 2026, contudo, produziu um dado extraordinário: 109 deputadas federais foram eleitas, superando as 90 da legislatura anterior. O crescimento foi de 21,1%. Eu diria aos meus alunos que esse número deve ser comemorado, mas jamais interpretado como sinônimo de igualdade plena. Afinal, 404 homens também foram eleitos, correspondendo a aproximadamente 79% da Câmara. Avançamos, sim; chegamos ao destino, não.

E há uma personagem que transforma esse resultado eleitoral em símbolo: Érika Hilton. Em 2026, ela tornou-se a mulher mais votada da história para a Câmara dos Deputados, alcançando 1.528.226 votos e superando o recorde feminino anterior, obtido por Joice Hasselmann em 2018. Mais do que um número eleitoral, esse resultado pode ser utilizado pelo vestibulando para discutir representatividade, democracia, diversidade e ampliação dos sujeitos que ocupam as instituições políticas brasileiras.

Érika Hilton, aliás, oferece outro repertório contemporâneo importante. Em 2026, ela também se tornou a primeira mulher trans a presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara. O episódio permite discutir a própria ideia de representação política e a pluralidade das experiências femininas. Para uma redação de alto nível, o estudante poderia articular Érika Hilton a Antonieta de Barros e demonstrar que a luta por representação não terminou quando uma mulher conquistou o direito ao voto, nem quando uma mulher negra chegou ao Parlamento: ela continua se expandindo para diferentes grupos historicamente marginalizados.

Outro repertório indispensável seria Simone de Beauvoir, especialmente a conhecida reflexão de O Segundo Sexo, segundo a qual ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Para o ENEM, essa ideia pode ser relacionada à construção social dos papéis de gênero. Durante séculos, a sociedade determinou quais espaços seriam considerados “adequados” às mulheres e quais pertenceriam aos homens. A política, nesse modelo, foi apresentada como território masculino. A presença crescente de mulheres no Parlamento, portanto, não representa apenas uma mudança numérica, mas também uma contestação de papéis sociais historicamente construídos.

Eu também recomendaria aos vestibulandos recorrer à filósofa Hannah Arendt, especialmente à reflexão sobre a participação na esfera pública. A política, para Arendt, relaciona-se à ação e à presença dos indivíduos no espaço comum. Se determinados grupos são sistematicamente impedidos de ocupar esse espaço, a própria democracia se empobrece. Assim, uma redação poderia defender que aumentar a participação feminina não é um favor concedido às mulheres, mas uma forma de fortalecer a própria democracia brasileira.

Outro repertório extremamente produtivo seria a Constituição Federal de 1988, sobretudo o princípio da igualdade entre homens e mulheres. O estudante poderia demonstrar, então, o contraste entre igualdade jurídica e desigualdade material: a lei estabelece direitos iguais, mas a realidade ainda apresenta obstáculos à participação política feminina. Dados divulgados pela própria Câmara antes das eleições de 2026 mostravam que o Brasil permanecia com uma das menores representações femininas na política latino-americana, apesar de as mulheres constituírem 52% do eleitorado.

E é exatamente nesse ponto que eu faria uma advertência aos meus alunos: não confundam representatividade com solução definitiva do problema. A eleição de 109 mulheres é avanço, mas a própria Câmara reconhece que a presença feminina continua muito abaixo da masculina. Além disso, existem barreiras relacionadas ao financiamento eleitoral, à cultura política, à violência de gênero e à distribuição desigual do trabalho doméstico. Portanto, a nova bancada feminina não encerra a luta; ela aumenta a possibilidade de que essa luta seja travada dentro das instituições.

Se esse assunto aparecesse como proposta de Redação no ENEM, eu ensinaria ao candidato a fugir do lugar-comum. Em vez de escrever “a mulher é importante na sociedade”, seria muito mais consistente construir uma linha histórica: Antonieta de Barros representando a ruptura inicial com a exclusão política; Simone de Beauvoir explicando a construção social dos papéis femininos; Constituição de 1988 estabelecendo a igualdade jurídica; Érika Hilton simbolizando a ampliação contemporânea da representação; e os dados eleitorais de 2026 demonstrando que houve progresso, embora a desigualdade permaneça. Isso é repertório produtivo: informação relacionada diretamente à tese.

Eu ainda acrescentaria escritoras brasileiras. Carolina Maria de Jesus, por exemplo, permite discutir a invisibilidade social, a pobreza e a voz de uma mulher negra que transformou a própria experiência em literatura. Djamila Ribeiro, por sua vez, possibilita trabalhar o conceito de lugar de fala e a necessidade de reconhecer diferentes experiências de opressão. Já Lélia Gonzalez permite aprofundar a discussão sobre gênero, raça e desigualdade no contexto brasileiro. Um candidato que articule essas referências sem transformá-las em meros enfeites demonstra compreender que a mulher brasileira não constitui uma categoria homogênea: mulheres negras, indígenas, pobres, trabalhadoras, mães solo e mulheres com deficiência enfrentam obstáculos distintos.

Depois de 28 anos ensinando Redação, eu diria aos meus alunos que há uma palavra que precisa aparecer quando discutimos tudo isso: continuidade. A eleição da maior bancada feminina da história da Câmara é importante, mas não basta contar mulheres sentadas em cadeiras parlamentares. É preciso perguntar quantas terão voz efetiva, quantas participarão das decisões, quantas conseguirão enfrentar a violência política de gênero e quantas políticas públicas serão efetivamente construídas para reduzir desigualdades. Antonieta de Barros abriu uma porta. Érika Hilton, assim como tantas outras mulheres eleitas em 2026, ajuda a mantê-la aberta. Cabe à democracia impedir que essa porta volte a ser fechada.

Por isso, quando penso em Antonieta de Barros, na mulher brasileira e na Redação do ENEM, penso também no que ensino há quase três décadas: escrever bem não significa apenas dominar a gramática; significa compreender o mundo para poder argumentar sobre ele. A história de Antonieta nos ensina que educação e representação política caminham juntas. O resultado de 2026 nos mostra que a sociedade pode mudar. A votação histórica de Érika Hilton demonstra que novas vozes podem alcançar espaços antes improváveis. Mas a verdadeira vitória acontecerá quando a presença da mulher na política deixar de ser notícia extraordinária e passar a ser algo absolutamente natural. Porque democracia que exclui metade de sua população dos espaços de decisão não é uma democracia completa — e, como eu sempre digo aos meus alunos, repertório para uma boa Redação começa quando aprendemos a enxergar aquilo que a sociedade, por muito tempo, preferiu não ver.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.