segunda-feira, 20 abril, 2026

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Crônica: Caligrafia turtuosa

Um eletrocardiograma em crise existencial

Por: Sérgio Sant’Anna*

Confesso que, ao longo dos anos corrigindo redações, desenvolvi uma espécie de sexto sentido para decifrar hieróglifos escolares. Sou professor de Redação e, quando me sento diante de uma pilha de textos, imagino-me menos como docente e mais como um arqueólogo da linguagem. Em teoria, deveria avaliar argumentos, coesão e repertório sociocultural; na prática, muitas vezes começo tentando descobrir se aquela palavra misteriosa é “cidadania” ou “ciborgue”.               Nesses momentos, lembro-me de que ensinar a escrever não é apenas ensinar ideias, mas também ensinar a torná-las visíveis.

Frequentemente penso em Paulo Freire, que defendia a educação como prática da liberdade. Imagino que, se ele estivesse corrigindo algumas redações comigo, talvez dissesse que a escrita também é um gesto de diálogo. Contudo, quando a letra do estudante parece um eletrocardiograma em crise existencial, o diálogo se torna um enigma. Não raro fico ali, olhando para o papel, tentando escutar o que o aluno quis dizer, como quem tenta compreender um sussurro no meio de uma tempestade.

Também me recordo de Jean Piaget, que via o aprendizado como construção gradual do conhecimento. Talvez a caligrafia seja parte desse processo de construção: primeiro vêm as ideias, depois a forma. Entretanto, há dias em que penso que alguns alunos pularam diretamente da fase do rabisco para a fase do ENEM. E eu, humilde corretor, fico entre o entusiasmo do argumento e o desafio quase científico de identificar cada palavra.

Em certos momentos, enquanto decifro frases tortuosas, sinto-me personagem de uma narrativa de Jorge Luis Borges. Lembro-me especialmente de A Biblioteca de Babel, em que infinitos livros contêm todos os textos possíveis. Talvez, em algum canto daquela biblioteca imaginária, exista um manual secreto para interpretar a letra dos estudantes. Enquanto esse manual não aparece, sigo deduzindo sílabas como quem resolve um quebra-cabeça metafísico.

Há, porém, dias mais dramáticos. Quando a caneta parece ter dançado sobre o papel durante um terremoto, recordo-me de Aristóteles e sua ideia de que a virtude está no equilíbrio. Penso que o mesmo deveria valer para a escrita: nem rígida como uma tipografia mecânica, nem caótica como um vendaval de tinta. Afinal, a linguagem, como dizia Ludwig Wittgenstein, delimita o nosso mundo — e uma letra indecifrável às vezes delimita também a paciência do professor.

Curiosamente, quando encontro uma redação com letra clara e bem organizada, sinto quase a mesma alegria que um leitor diante de um clássico de Machado de Assis ou de uma página límpida de Clarice Lispector. A escrita se torna fluida, as ideias se revelam, e o texto respira. Percebo, então, que a forma também comunica respeito pelo leitor — e, nesse caso, o leitor sou eu, armado apenas com uma caneta vermelha e muita esperança pedagógica.

Apesar de tudo, continuo acreditando no processo educativo. Entre rabiscos indecifráveis e frases luminosas, sigo lembrando das palavras de educadores que sempre insistiram na formação integral do estudante. A letra pode ser confusa hoje, mas a ideia que nela habita pode ser brilhante amanhã. E assim sigo, corrigindo redações como quem lê pequenos capítulos da formação humana — às vezes com lupa, às vezes com fé, mas sempre com a convicção de que, por trás de cada caligrafia tortuosa, existe um pensamento tentando nascer.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.