domingo, 19 abril, 2026

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Artigo: Enxugando o Estado, inundando cidades — e agora Taquaritinga?

Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**

O Partido Novo tem a virtude do nome e o vício da prática. “Novo” como aquele restaurante que inaugura com parede de cimento queimado e cardápio enxuto — e fecha antes do segundo inverno. A estética é descolada; a gestão, um déjà-vu fiscal com cheiro de mofo.

Em Minas Gerais, sob a batuta empresarial de Romeu Zema, decidiu-se que prevenção contra enchentes era quase um capricho meteorológico. A verba para enfrentar o impacto das chuvas despencou 96%: de R$ 135 milhões para R$ 6 milhões. Em dois anos, a política pública emagreceu até virar dieta líquida — R$ 16.100 destinados à infraestrutura nos primeiros meses do ano, valor que não paga nem o cafezinho do gabinete do Flávio Bolsonaro.

Enquanto isso, os temporais fizeram o que temporais fazem quando encontram governos minimalistas: inundaram. Municípios como Juiz de Fora e Ubá contabilizaram mortos. A chuva não lê planilha. A enxurrada não respeita teto de gastos. A física é imune ao PowerPoint.

A cena seguinte é didática: reconhece-se o estado de calamidade, convoca-se a Defesa Civil, aciona-se a Força Nacional do SUS. O socorro vem do Estado que o discurso jurava enxugar. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se solidariza, a máquina federal entra em campo e, de repente, o Leviatã vira salva-vidas. No liberalismo tropical, o Estado é vilão até a primeira enchente.

E eis que essa pedagogia das águas quer se matricular em Taquaritinga. A promessa é a velha fábula da redenção: não deram certo antes, mas agora, jura-se, dará — sobretudo se os outros fracassarem primeiro. É a política como terapia de grupo: cura-se a própria biografia tentando reescrever a dos adversários.

No fim, o “novo” oferece a antiguidade do improviso. Corta-se o invisível (prevenção), exibe-se o visível (discurso), terceiriza-se o desastre (para Brasília) e batiza-se tudo de responsabilidade fiscal. Quando a chuva passa, sobra a lama — e a certeza de que planilha nenhuma substitui ponte, drenagem e sirene.

Se Taquaritinga quiser uma ruptura histórica, talvez comece por desconfiar de quem confunde governo com planilha e chama enchente de externalidade. Porque, no Brasil, a tragédia é velha. O marketing é que muda a tipografia.

*Raphael Anselmo é economista.

**Gustavo Girotto é jornalista.

***Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.