sábado, 18 abril, 2026

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Coluna Clikando – Quando a cidade encontra a mata

Medo, responsabilidade e a urgência de agir

Por: Gabriel Bagliotti*

Confesso que a notícia do ataque de uma onça a um cão, no Jardim Sesquicentenário, me causou um misto de espanto, tristeza e reflexão. Espanto, porque ainda nos surpreendemos quando a natureza rompe os limites que nós mesmos impusemos a ela. Tristeza, porque o episódio terminou da pior forma possível, com a morte de um animal doméstico e o sofrimento de uma família. E reflexão, porque o caso escancara um debate que Taquaritinga precisa enfrentar com mais seriedade: a convivência entre o crescimento urbano e o meio ambiente.

Não se trata de um fato isolado. O relato da moradora, inicialmente publicado nas redes sociais, rapidamente ganhou corpo, repercussão e confirmou algo que muitos preferem ignorar: há um felino de grande porte circulando entre áreas de mata próximas a bairros residenciais. As pegadas encontradas pelo Corpo de Bombeiros não deixam dúvidas, assim como os ataques recentes a animais de grande porte na zona rural. Quando uma égua é atacada e precisa ser sacrificada, o sinal de alerta já deveria ter soado mais alto.

É compreensível o medo dos moradores. Afinal, quando uma onça escala um muro e entra em um quintal, a sensação de insegurança deixa de ser abstrata e passa a ser real. Mas também é preciso ponderar. A onça não “invadiu” a cidade por maldade ou instinto assassino. Ela está ali porque seu habitat foi, ao longo dos anos, encurralado, fragmentado e empurrado para cada vez mais perto das casas, das ruas e das pessoas.

Isso não diminui a gravidade da situação, tampouco o sofrimento causado. Pelo contrário. Exige das autoridades uma resposta rápida, técnica e responsável. Capturar o animal de forma segura e devolvê-lo ao seu habitat natural é o caminho correto — e torço para que isso aconteça o quanto antes, tanto para proteger a população quanto para preservar a vida do felino.

Mas não posso deixar de dizer: esse episódio precisa ir além da comoção momentânea. É hora de discutir o avanço desordenado sobre áreas de mata, o abandono de canteiros e áreas verdes, o mato alto, a proximidade de rios e fragmentos florestais sem qualquer tipo de manejo ambiental adequado. Fingir que nada disso tem relação com o ocorrido é fechar os olhos para o óbvio.

Como jornalista e como cidadão, acredito que Taquaritinga precisa aprender com o episódio. Segurança pública e preservação ambiental não são opostas; caminham juntas. Proteger as pessoas passa, também, por respeitar os limites da natureza. Quando ignoramos isso, situações como essa deixam de ser exceção e passam a ser um risco constante.

Que a onça seja encontrada em segurança. Que não haja novas vítimas. E, principalmente, que este episódio sirva de alerta para que possamos repensar a forma como ocupamos, cuidamos — ou negligenciamos — o território que chamamos de cidade.

*Gabriel Bagliotti é jornalista responsável e diretor presidente de O Defensor.