sábado, 29 agosto, 2026
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Clikando – Ninguém se cale

Lançamento de pacto em Taquaritinga reforça uma convicção que precisamos transformar em atitude: diante da violência, o silêncio jamais pode ser uma opção

Na tarde da última quinta-feira, 27 de agosto, a Associação Comercial e Industrial de Taquaritinga recebeu o lançamento do Pacto Ninguém Se Cale, iniciativa voltada à conscientização, prevenção e enfrentamento da violência contra a mulher. E acredito que poucas causas exigem de nós uma posição tão clara: violência contra a mulher não é um problema particular, doméstico ou restrito à vítima. É um problema de toda a sociedade.

Por muitos anos, situações de violência ocorridas dentro de casa foram tratadas como assuntos nos quais ninguém deveria interferir. Essa mentalidade precisa permanecer definitivamente no passado. Quando existem agressões, ameaças, humilhações, perseguições, violência psicológica, patrimonial, sexual ou qualquer outra forma de abuso, não estamos diante de uma simples discussão entre duas pessoas. Estamos diante de uma violação de direitos.

Por isso, considero extremamente importante que Taquaritinga receba iniciativas como o Pacto Ninguém Se Cale.

Durante o encontro, a promotora de Justiça Dra. Patrícia Frighetto Gasparini apresentou informações e orientações sobre a identificação das diferentes situações de violência, a importância da denúncia e, principalmente, sobre a necessidade de romper o silêncio.

Esse último ponto merece nossa atenção.

Muitas mulheres permanecem durante anos submetidas a relacionamentos abusivos. E não cabe a quem está de fora simplesmente perguntar por que aquela mulher não foi embora. Existem dependência financeira, filhos, ameaças, medo, isolamento, dependência emocional e inúmeros outros fatores que tornam muito mais complexa uma situação que, vista de longe, pode parecer simples.

Também precisamos compreender que o enfrentamento à violência não pode ficar exclusivamente nas mãos da polícia, do Ministério Público, do Judiciário ou dos serviços de assistência social. Essas instituições possuem funções fundamentais, mas a construção de uma verdadeira rede de proteção depende também da comunidade.

E nisso entram famílias, amigos, vizinhos, escolas, empresas, associações e entidades.

Considero especialmente significativa a realização desse encontro dentro da Associação Comercial e Industrial de Taquaritinga (ACIT). O ambiente de trabalho também precisa participar dessa discussão. Muitas vezes, uma colega ou funcionária apresenta mudanças de comportamento, faltas frequentes, medo constante, isolamento ou outros sinais que podem indicar que alguma coisa não está bem. Evidentemente, ninguém deve fazer acusações precipitadas, mas podemos construir ambientes preparados para ouvir, acolher e orientar.

Empresas também possuem responsabilidade social. E responsabilidade social não pode existir apenas no discurso.

A presença do Ministério Público do Estado de São Paulo, do Ministério Público do Trabalho e da ACIT nessa mobilização demonstra justamente a necessidade de articulação entre diferentes setores. Quanto mais instituições estiverem preparadas para identificar situações de violência e orientar corretamente as vítimas, mais forte será essa rede.

Também considero fundamental trabalharmos a prevenção.

Precisamos ensinar nossas crianças e nossos jovens sobre respeito, limites, igualdade e dignidade. Meninos precisam crescer compreendendo que ciúme excessivo não é demonstração de amor, controle não é cuidado, humilhação não é normal e nenhuma relação concede a alguém o direito de determinar como outra pessoa deve viver.

Não podemos esperar a agressão acontecer para começar a discutir violência.

Como jornalista, acredito profundamente no papel da informação nesse processo. A imprensa precisa divulgar campanhas, explicar direitos, apresentar os canais de denúncia e, principalmente, tratar cada caso com responsabilidade, evitando transformar o sofrimento de uma vítima em espetáculo.

Mas, como cidadão, acredito que nossa responsabilidade vai ainda além.

Se soubermos de uma situação de violência, precisamos abandonar aquela velha frase: “não tenho nada a ver com isso”. Temos, sim.

Não significa agir de maneira imprudente ou colocar alguém em risco. Significa procurar os canais adequados, buscar orientação e permitir que as instituições responsáveis possam atuar.

O próprio nome do pacto carrega uma mensagem poderosa: Ninguém Se Cale.

Que não se cale a vítima. Que não se cale a família. Que não se cale o vizinho. Que não se cale a empresa. Que não se calem as instituições. Que não se cale a sociedade.

Porque combater a violência contra a mulher exige legislação, fiscalização e políticas públicas, mas exige também algo que começa dentro de cada um de nós: a decisão de não normalizar aquilo que jamais deveria ser considerado normal.

Taquaritinga precisa abraçar essa causa.

E, diante de qualquer forma de violência contra a mulher, nossa posição precisa ser inequívoca: ninguém se cale.

*Gabriel Bagliotti é jornalista responsável e diretor presidente de O Defensor.