O capacitismo e a urgência de aprender a incluir.
Por: Sérgio Sant’Anna*
Como professor de Redação aprendi que alguns temas precisam ultrapassar os muros da sala de aula para que possamos compreender a sociedade que pretendemos transformar. Por isso, considero o capacitismo uma possibilidade bastante pertinente para uma proposta de redação do ENEM 2026. Afinal, discutir a discriminação contra pessoas com deficiência significa colocar em pauta não apenas a acessibilidade física, mas também o direito à educação, ao trabalho, à autonomia, à afetividade, à cultura e à plena participação social. Em uma sociedade que costuma celebrar a diversidade em discursos, mas nem sempre a pratica no cotidiano, questionar o capacitismo é, sobretudo, questionar quem ainda tem o direito de ocupar determinados espaços.
Os números ajudam a retirar o assunto do campo da invisibilidade. Segundo dados do Censo Demográfico 2022, divulgados pelo IBGE em 2025, o Brasil possuía 14,4 milhões de pessoas com deficiência, equivalentes a 7,3% da população de dois anos ou mais. Não estamos, portanto, falando de uma minoria irrelevante ou de uma questão restrita a determinados grupos familiares: estamos falando de milhões de brasileiros. Quando observo esses números como professor, penso imediatamente na responsabilidade da escola e, consequentemente, da própria redação do ENEM: formar estudantes capazes de perceber que estatísticas representam pessoas, histórias, desejos, talentos e direitos.
O problema torna-se ainda mais grave quando analisamos a educação. O IBGE aponta que 63,1% das pessoas com deficiência de 25 anos ou mais não haviam concluído a educação básica obrigatória, enquanto entre as pessoas sem deficiência esse percentual era de 32,3%. Além disso, apenas 7,4% das pessoas com deficiência haviam concluído o ensino superior, contra 19,5% das pessoas sem deficiência. Diante disso, pergunto: como falar em igualdade de oportunidades se tantos brasileiros ainda encontram barreiras para chegar à escola, permanecer nela e alcançar a universidade? A deficiência não pode ser utilizada como justificativa para a exclusão; muitas vezes, é a própria sociedade que transforma diferenças individuais em obstáculos sociais.
É justamente nesse ponto que o conceito de capacitismo precisa ser compreendido. O próprio Governo Federal o define como discriminação e preconceito contra pessoas com deficiência, podendo manifestar-se por tratamento desfavorável ou até por uma suposta proteção exagerada. Isso é importante porque o capacitismo nem sempre aparece como uma agressão explícita. Ele pode estar naquela pessoa que fala com o acompanhante em vez de dirigir-se diretamente à pessoa com deficiência; no empregador que presume incompetência antes mesmo de conhecer o candidato; na escola que não oferece recursos de acessibilidade; ou ainda na sociedade que transforma qualquer conquista de uma pessoa com deficiência em um espetáculo de “superação”.
Nesse sentido, lembro-me do filósofo Michel Foucault, especialmente de sua reflexão sobre as instituições e os mecanismos de normalização. A sociedade estabelece padrões de comportamento, produtividade, aparência e autonomia e, posteriormente, passa a tratar como “anormal” quem deles se distancia. O capacitismo nasce, muitas vezes, dessa lógica: cria-se um modelo ideal de corpo e funcionamento e, depois, mede-se o indivíduo pela distância que ele apresenta em relação a esse padrão. O problema, portanto, não está simplesmente no corpo que apresenta uma deficiência, mas também nas estruturas sociais que não estão preparadas para acolher diferentes formas de existir.
A filosofia de Hannah Arendt também pode contribuir para essa discussão quando pensamos na importância da participação do indivíduo no espaço público. Para Arendt, a vida humana não se reduz à sobrevivência biológica; somos seres que agimos, convivemos e construímos um mundo comum. Uma sociedade verdadeiramente democrática, portanto, não pode reservar o espaço público apenas aos indivíduos considerados “adequados” aos seus padrões. Quando uma pessoa com deficiência é impedida de estudar, trabalhar, circular, produzir arte ou exercer sua cidadania, não é apenas ela que perde: a própria sociedade se torna menor porque deixa de ouvir uma parcela de suas vozes.
A literatura brasileira também oferece caminhos para essa reflexão. Em “Feliz Ano Velho”, Marcelo Rubens Paiva narra, a partir de sua experiência autobiográfica, as transformações provocadas pelo acidente que o deixou tetraplégico. A obra é especialmente significativa porque permite pensar a deficiência para além da imagem estereotipada da fragilidade. E a atualidade desse debate foi demonstrada recentemente pelo próprio campo artístico: em 2026, a escalação de atores sem deficiência para interpretar Marcelo em uma adaptação teatral provocou críticas de artistas com deficiência e reacendeu a discussão sobre representatividade e o chamado cripface. A pergunta que emerge é incômoda, mas necessária: se existem artistas com deficiência, por que tantas vezes eles continuam sendo espectadores das histórias que também lhes pertencem?
O cinema brasileiro também tem desempenhado papel importante nessa desconstrução. “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”, de Daniel Ribeiro, apresenta Leonardo, um adolescente cego que deseja independência, amizade, amor e descobertas próprias da juventude. O filme é valioso justamente porque não reduz seu protagonista à deficiência: Leonardo é um adolescente com desejos, conflitos, afetos e projetos. Estudos sobre a obra destacam exatamente sua contribuição para romper a estereotipização da pessoa com deficiência como alguém sem desejos ou autonomia. Mais recentemente, “Colegas e o Herdeiro”, lançado em 2026, ampliou essa representação ao abordar autonomia, relacionamentos, sexualidade, neurodivergência e capacitismo com atores com deficiência.
Também acredito que a música brasileira possa funcionar como repertório para essa discussão. A canção “Paciência”, de Lenine, ao refletir sobre uma sociedade acelerada que frequentemente não consegue respeitar o tempo humano, permite uma associação pertinente com a necessidade de compreender diferentes ritmos, corpos e formas de participação. Já “É Preciso Saber Viver”, eternizada por diferentes intérpretes brasileiros, pode ser relacionada à construção de uma existência que não deveria depender de padrões impostos socialmente. Não se trata, evidentemente, de afirmar que essas músicas foram compostas especificamente sobre capacitismo, mas de compreender como a arte pode fornecer conceitos para ampliar a reflexão. Na redação do ENEM, repertório produtivo é aquele que dialoga com o argumento, e não aquele que simplesmente aparece como enfeite.
A legislação brasileira, por sua vez, deixa evidente que não estamos diante de uma questão de benevolência, caridade ou favor. A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência — Lei nº 13.146/2015 estabelece que toda pessoa com deficiência tem direito à igualdade de oportunidades e não pode sofrer qualquer espécie de discriminação. A própria legislação determina a garantia de ambientes de trabalho acessíveis e inclusivos e de condições justas de trabalho. Portanto, quando uma escola não oferece acessibilidade, quando um estabelecimento impede a circulação de uma pessoa ou quando uma empresa exclui um candidato por sua deficiência, não estamos diante de uma simples “falta de gentileza”: estamos diante de uma questão de direitos.
No mercado de trabalho, o contraste também é expressivo. Dados do IBGE já haviam demonstrado que, em 2019, a taxa de participação das pessoas com deficiência no mercado de trabalho era de apenas 28,3%, menos da metade daquela registrada entre pessoas sem deficiência, de 66,3%. Isso me faz pensar no quanto ainda confundimos deficiência com incapacidade. Uma pessoa pode utilizar cadeira de rodas e ser excelente profissional; pode ser cega e possuir extraordinária competência intelectual; pode ter síndrome de Down e desenvolver habilidades profissionais; pode ser autista e apresentar talentos que muitas empresas sequer sabem reconhecer. O verdadeiro limite, muitas vezes, está menos no indivíduo e mais na ausência de estruturas capazes de reconhecer suas potencialidades.
É nesse ponto que a escola assume uma responsabilidade decisiva. Como professor, não acredito que combater o capacitismo seja apenas ensinar o significado de uma palavra nova aos estudantes. É necessário ensinar a olhar. É necessário questionar piadas, estereótipos, expressões preconceituosas e representações midiáticas que transformam pessoas com deficiência em objetos de pena ou em heróis extraordinários simplesmente por realizarem atividades cotidianas. A educação inclusiva precisa caminhar para além da matrícula: deve garantir participação, aprendizagem, acessibilidade, convivência e respeito. O próprio Ministério da Educação vem tratando o enfrentamento ao capacitismo como parte da educação especial inclusiva.
Por isso, se o capacitismo aparecer como tema da redação do ENEM 2026, acredito que os estudantes não deverão limitar sua argumentação à falta de rampas ou à ausência de elevadores. A discussão precisa alcançar dimensões mais profundas: preconceito estrutural, barreiras atitudinais, exclusão educacional, mercado de trabalho, representatividade cultural, acessibilidade digital, autonomia e efetivação dos direitos previstos na legislação. A Constituição Federal de 1988 estabeleceu a dignidade da pessoa humana como fundamento da República; a Lei Brasileira de Inclusão transformou essa perspectiva em direitos específicos. Cabe à sociedade fazer com que esses princípios deixem de existir apenas no papel.
Como professor de Redação costumo dizer aos meus alunos que uma boa redação começa quando conseguimos enxergar aquilo que muitos preferem ignorar. O capacitismo nos obriga a olhar para uma sociedade que ainda seleciona quem pode circular, estudar, trabalhar, amar, produzir arte e ocupar espaços de poder. Talvez o maior desafio não seja ensinar as pessoas a “aceitar” a deficiência, mas compreender que ninguém deveria precisar ser aceito para ter direitos. O ENEM, caso escolha essa temática em 2026, poderá fazer mais do que avaliar competências linguísticas: poderá provocar milhões de jovens a pensar sobre o tipo de sociedade que desejam construir. Afinal, inclusão não é colocar alguém diferente dentro de um mundo pronto; é transformar o mundo para que as diferenças possam existir sem que ninguém precise pedir licença para ser plenamente humano.
*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.
**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.




