sexta-feira, 9 outubro, 2026
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Artigo: O problema não é a luz azul

Por: Marcello Colombo Barboza*

“Doutor, a tela faz mal para os olhos do meu filho?” Essa pergunta chega quase todos os dias ao consultório, frequentemente acompanhada de bastante preocupação. Celular, tablet, computador e videogame já fazem parte da rotina de crianças e adolescentes, mas a ciência nos ajuda a separar o que realmente importa dos mitos que cercam esse assunto.

Uma das maiores preocupações dos pais é a miopia. Uma meta-análise publicada em 2025 na Jama Network Open, uma revista médica científica internacional, reunindo 45 estudos e mais de 335 mil participantes, revelou que cada hora a mais de tela por dia esteve associada a um aumento de 21% na chance de miopia. O número chama a atenção, mas é preciso ponderar: associação não significa causa direta. O problema surge, na verdade, quando o tempo de tela vem acompanhado de longos períodos de visão de perto e de pouco tempo ao ar livre.

A dimensão global do problema impressiona. Uma revisão sistemática publicada na renomada revista Ophthalmology projetou que, até 2050, cerca de metade da população mundial poderá ter miopia. E vale lembrar que miopia não é apenas uma questão de “precisar de óculos”: quanto maior o grau, maior o risco, ao longo da vida, de desenvolver descolamento de retina, glaucoma e alterações na mácula.

Por outro lado, quando falamos sobre os benefícios do tempo ao ar livre, a evidência científica é ainda mais consistente. Ensaios clínicos e meta-análises mostram que aumentar as atividades externas reduz significativamente o risco do aparecimento da miopia. Por isso, estimular cerca de duas horas por dia ao ar livre é uma das orientações mais simples e eficazes que podemos oferecer.

As telas também causam o chamado cansaço visual. Sintomas como ardência, olho seco, dor de cabeça e visão embaçada costumam surgir após períodos prolongados de uso. Quando a criança está concentrada, pisca menos e permanece tempo demais olhando para objetos muito próximos. Fazer pausas, olhar para longe, piscar mais e evitar o celular colado ao rosto ajuda muito mais do que recorrer aos filtros de luz azul. Afinal, até hoje, não existe evidência científica sólida de que esses filtros previnam o cansaço visual.

Não se trata de banir a tecnologia, mas de ensinar e praticar o equilíbrio. Menos tempo seguido olhando de perto, mais pausas, atividades físicas, tempo ao ar livre e atenção ao sono fazem toda a diferença. Além disso, a saúde dos olhos deve ser acompanhada desde os primeiros anos de vida, com avaliações periódicas durante a infância, especialmente na fase escolar. Afinal, cuidar da visão também é ensinar as crianças a tirar os olhos da tela para continuar olhando e descobrindo o mundo ao seu redor.

*Marcello Colombo Barboza é professor universitário doutor e livre-docente em Oftalmologia, MBA FGV em gestão de Saúde e diretor clínico do Hospital Visão Laser.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.