quinta-feira, 30 abril, 2026

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Artigo: A venda do emagrecimento ‘milagroso’ em Taquaritinga

Por: Arthur Micheloni*

Nos últimos dias, surgiram comentários e relatos sobre situações envolvendo estabelecimentos que ofereciam tratamentos para emagrecimento com uso de medicamentos, levantando discussões importantes sobre segurança, legalidade e responsabilidade profissional.

Independentemente dos detalhes ou da veracidade de cada caso específico, uma coisa é certa: esse tipo de situação acende um alerta que precisa ser levado a sério.

O uso de medicamentos modernos para emagrecimento, como a tirzepatida (conhecida comercialmente como Mounjaro), representa um avanço significativo na medicina. Comento com meus pacientes que a considero o segundo maior marco da medicina, perdendo apenas para a descoberta da penicilina.

A tirzepatida atua diretamente em mecanismos hormonais complexos, regulando o apetite, a saciedade, a glicemia e o metabolismo.

Mas, justamente por serem potentes, não são produtos estéticos: são medicamentos de uso clínico.

E é aqui que mora o problema!

Com a popularização desses tratamentos, aumentou também a oferta de locais que prometem resultados rápidos, muitas vezes sem a estrutura adequada, sem avaliação clínica completa e, em alguns casos, sem a presença de profissionais habilitados para conduzir esse tipo de intervenção.

A legislação brasileira é clara: a prescrição de medicamentos é um ato médico. Além disso, o tratamento do emagrecimento, especialmente quando envolve fármacos, exige acompanhamento multidisciplinar, com suporte nutricional adequado para evitar perda de massa muscular, deficiências nutricionais e efeito rebote.

Em minha prática clínica, na Clínica Micheloni, esse tipo de tratamento é conduzido por meio de um protocolo estruturado, que envolve acompanhamento médico com prescrição da medicação, aliado a um suporte nutricional contínuo. O paciente passa por uma fase preparatória antes do início do uso do medicamento e, ao longo de todo o processo, é monitorado por meio de avaliações de composição corporal, como a bioimpedância, além de seguir um plano alimentar individualizado. Essa abordagem permite maior segurança, melhor controle metabólico e preservação da massa muscular, sempre com acompanhamento conjunto de médico e nutricionista.

Quando esse processo é banalizado, o risco deixa de ser apenas estético e passa a ser clínico.

Entre os principais problemas observados em abordagens inadequadas estão:

  • emagrecimento rápido com perda de massa magra
    • alterações metabólicas não monitoradas
    • carências nutricionais importantes
    • retorno do peso após o término do uso
    • ausência de critérios individualizados

Outro ponto preocupante é a forma como esses tratamentos têm sido divulgados. Em muitos casos, a comunicação foca apenas no “antes e depois” (prática proibida pelo CRN e interpretada como inadequada e altamente restrita pelo CRM), ignorando completamente o que acontece nos bastidores, como avaliação, exames, ajustes, acompanhamento e segurança.

E é justamente essa parte invisível que define o sucesso ou o fracasso de um tratamento.

O emagrecimento de verdade não acontece por acaso. Ele é construído com estratégia, ciência e acompanhamento contínuo.

Isso inclui entender o histórico do paciente, suas condições metabólicas, seus hábitos, suas limitações e seus objetivos. Inclui também saber quando indicar, quando não indicar, quando ajustar e quando interromper. E, mais do que isso, envolve responsabilidade.

Casos recentes servem como um lembrete importante de que saúde não deve ser tratada como atalho. Quando se pulam etapas, o que parece solução pode rapidamente se tornar problema.

Por isso, antes de iniciar qualquer tratamento, vale a reflexão:

“Quem está conduzindo esse processo? Existe acompanhamento adequado? Há avaliação individualizada? Existe segurança?”

No fim das contas, o verdadeiro diferencial não está no medicamento utilizado, mas na forma como ele é conduzido.

E, quando o assunto é saúde, isso faz toda a diferença.

* Arthur Micheloni é Fisioterapeuta, Nutricionista e licenciado em Ciências Biológicas. Possui pós-graduação em Osteopatia, Fitoterapia, Ortopedia e Traumatologia, Nutrição no Transtorno do Espectro Autista e Nutrição Esportiva. Atua com abordagem baseada na Medicina Integrativa, unindo ciência e experiência clínica. drarthur@clinicamicheloni.com

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.