Por: Arthur Micheloni*
Nos últimos dias, surgiram comentários e relatos sobre situações envolvendo estabelecimentos que ofereciam tratamentos para emagrecimento com uso de medicamentos, levantando discussões importantes sobre segurança, legalidade e responsabilidade profissional.
Independentemente dos detalhes ou da veracidade de cada caso específico, uma coisa é certa: esse tipo de situação acende um alerta que precisa ser levado a sério.
O uso de medicamentos modernos para emagrecimento, como a tirzepatida (conhecida comercialmente como Mounjaro), representa um avanço significativo na medicina. Comento com meus pacientes que a considero o segundo maior marco da medicina, perdendo apenas para a descoberta da penicilina.
A tirzepatida atua diretamente em mecanismos hormonais complexos, regulando o apetite, a saciedade, a glicemia e o metabolismo.
Mas, justamente por serem potentes, não são produtos estéticos: são medicamentos de uso clínico.
E é aqui que mora o problema!
Com a popularização desses tratamentos, aumentou também a oferta de locais que prometem resultados rápidos, muitas vezes sem a estrutura adequada, sem avaliação clínica completa e, em alguns casos, sem a presença de profissionais habilitados para conduzir esse tipo de intervenção.
A legislação brasileira é clara: a prescrição de medicamentos é um ato médico. Além disso, o tratamento do emagrecimento, especialmente quando envolve fármacos, exige acompanhamento multidisciplinar, com suporte nutricional adequado para evitar perda de massa muscular, deficiências nutricionais e efeito rebote.
Em minha prática clínica, na Clínica Micheloni, esse tipo de tratamento é conduzido por meio de um protocolo estruturado, que envolve acompanhamento médico com prescrição da medicação, aliado a um suporte nutricional contínuo. O paciente passa por uma fase preparatória antes do início do uso do medicamento e, ao longo de todo o processo, é monitorado por meio de avaliações de composição corporal, como a bioimpedância, além de seguir um plano alimentar individualizado. Essa abordagem permite maior segurança, melhor controle metabólico e preservação da massa muscular, sempre com acompanhamento conjunto de médico e nutricionista.
Quando esse processo é banalizado, o risco deixa de ser apenas estético e passa a ser clínico.
Entre os principais problemas observados em abordagens inadequadas estão:
- emagrecimento rápido com perda de massa magra
• alterações metabólicas não monitoradas
• carências nutricionais importantes
• retorno do peso após o término do uso
• ausência de critérios individualizados
Outro ponto preocupante é a forma como esses tratamentos têm sido divulgados. Em muitos casos, a comunicação foca apenas no “antes e depois” (prática proibida pelo CRN e interpretada como inadequada e altamente restrita pelo CRM), ignorando completamente o que acontece nos bastidores, como avaliação, exames, ajustes, acompanhamento e segurança.
E é justamente essa parte invisível que define o sucesso ou o fracasso de um tratamento.
O emagrecimento de verdade não acontece por acaso. Ele é construído com estratégia, ciência e acompanhamento contínuo.
Isso inclui entender o histórico do paciente, suas condições metabólicas, seus hábitos, suas limitações e seus objetivos. Inclui também saber quando indicar, quando não indicar, quando ajustar e quando interromper. E, mais do que isso, envolve responsabilidade.
Casos recentes servem como um lembrete importante de que saúde não deve ser tratada como atalho. Quando se pulam etapas, o que parece solução pode rapidamente se tornar problema.
Por isso, antes de iniciar qualquer tratamento, vale a reflexão:
“Quem está conduzindo esse processo? Existe acompanhamento adequado? Há avaliação individualizada? Existe segurança?”
No fim das contas, o verdadeiro diferencial não está no medicamento utilizado, mas na forma como ele é conduzido.
E, quando o assunto é saúde, isso faz toda a diferença.



