sexta-feira, 6 março, 2026

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Artigo: A picanha foi para a grelha. E alguns mitos também

Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**

Houve um tempo em que se dizia, com certo desdém elitista, que dólar baixo era um problema porque “até empregada doméstica estava indo para a Disney”. A frase, atribuída ao então superministro da Economia Paulo Guedes, virou símbolo de uma visão de país onde ascensão social era quase uma afronta.

O aeroporto cheio incomodava. O pobre consumindo incomodava. O Brasil respirando incomodava.

Hoje, sob o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, os números contam outra história — e não é narrativa de rede social, é dado frio. O próprio mercado financeiro, que não costuma distribuir flores ao Planalto, revisou a estimativa de inflação para 3,91% em 2026. Abaixo do teto da meta. O PIB projetado subiu. Pequeno? Talvez. Mas subiu. Em economia, tendência é mais importante que grito.

O IPCA de janeiro ficou em 0,33%. No acumulado de 12 meses, 4,44%. A inflação de 2025 fechou em 4,26%: acima do centro da meta, mas dentro do intervalo estabelecido pelo Conselho Monetário Nacional.

Não é milagre. É estabilidade. E estabilidade, para quem vive de salário, vale mais que bravata ideológica.

Enquanto isso, a tal “picanha” — transformada em meme eleitoral — virou símbolo involuntário de um debate maior: quem tem direito ao consumo? Quem pode sonhar com carne no prato, viagem de avião ou crédito no banco.

Durante anos, vendeu-se a ideia de que austeridade era virtude moral, mesmo quando ela apertava sempre o mesmo pescoço. A verdade inconveniente é que políticas voltadas à base da pirâmide não destroem a economia; elas movimentam.

Pobre não aplica em paraíso fiscal. Pobre compra no mercado do bairro. E isso gira emprego, renda e arrecadação.

E aqui entra Taquaritinga. Enquanto o país ajusta rota, revisa projeções e tenta — com erros e acertos — sair do discurso para os números, nossa cidade continua especialista em perder o bonde. Não por falta de potencial, mas por excesso de desperdício, privilégios e pequenos feudos.

A conta da letargia é paga em prestações: infraestrutura parada, planejamento inexistente e uma elite local que confunde administração pública com herança de família.

O Brasil pode até oscilar, mas anda. Taquaritinga insiste em assistir. No plano nacional, a picanha foi para a grelha — junto com certas ilusões fáceis e certos mitos de salvadores da pátria. Já no plano municipal, seguimos assando o futuro em fogo baixo, temperado por compadrio e falta de visão.

O país discute meta de inflação. Nós ainda discutimos sobrevivência administrativa.

Talvez o problema nunca tenha sido o pobre no aeroporto. Talvez o problema sempre tenha sido quem não suporta dividir a sala de embarque.

O país discute meta de inflação dentro da banda de tolerância. Nós operamos na confortável banda da conivência. Desenvolvimento exige planejamento. Planejamento exige ruptura. Ruptura ameaça sobrenomes.

*Raphael Anselmo é economista.

**Gustavo Girotto é jornalista.

***Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.