terça-feira, 2 junho, 2026

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Crônica: Compreender é melhor que decorar

O aluno brasileiro estuda para passar e não para aprender.

Por: Sérgio Sant’Anna*

Durante décadas, o estudante brasileiro aprendeu uma estranha arte: a de decorar sem compreender. Desde os primeiros anos da alfabetização até as salas silenciosas dos programas de doutorado, consolidou-se uma cultura em que o objetivo não é aprender, mas passar. Estuda-se para a prova, faz-se a prova para a nota, obtém-se a nota para avançar de série, e então tudo é cuidadosamente esquecido. A escola, muitas vezes, transformou-se em uma fábrica de certificados, não de conhecimento.

O educador brasileiro Paulo Freire denunciava aquilo que chamou de “educação bancária”, um modelo em que o professor deposita informações e o aluno apenas as armazena temporariamente. Pouco importa a reflexão, a dúvida ou a construção coletiva do saber. O importante é reproduzir exatamente aquilo que foi exigido. O estudante torna-se um repetidor de conteúdos, e não um sujeito capaz de interpretar o mundo.

A ironia é que vivemos na era da informação. Nunca houve tanto conhecimento disponível. Entretanto, nunca pareceu tão raro encontrar pessoas dispostas a refletir profundamente sobre aquilo que leem. Como observava o filósofo francês Michel de Montaigne, “mais vale uma cabeça bem-feita do que uma cabeça bem-cheia”. O sistema educacional brasileiro, em muitos momentos, continua preferindo cabeças cheias de fórmulas, datas e conceitos que evaporam logo após a avaliação.

Não é por acaso que muitos alunos perguntam diariamente: “Professor, isso vai cair na prova?” A pergunta revela uma tragédia silenciosa. O valor do conhecimento deixa de estar em sua capacidade de transformar a visão de mundo e passa a ser medido por sua utilidade imediata na obtenção de pontos. O saber deixa de ser uma janela e torna-se apenas um obstáculo burocrático.

O escritor Rubem Alves costumava dizer que existem escolas que ensinam respostas para perguntas que ninguém fez. Talvez resida aí parte do problema. A curiosidade natural da criança vai sendo substituída por uma sucessão de exercícios mecânicos. Aos poucos, o encanto da descoberta cede espaço à ansiedade da aprovação. Aprende-se a responder, mas desaprende-se a perguntar.

Enquanto isso, os grandes movimentos pedagógicos que defendem a autonomia intelectual permanecem frequentemente restritos aos livros acadêmicos. As propostas da Escola Nova, inspiradas por pensadores como John Dewey, defendiam uma aprendizagem baseada na experiência e na investigação. Entretanto, a rotina de muitas instituições continua girando em torno da memorização, dos simulados e dos rankings.

Talvez o sistema também tema aqueles que pensam demais. O filósofo alemão Theodor Adorno advertia que a educação deveria formar indivíduos capazes de resistir à barbárie por meio da reflexão crítica. Pessoas que questionam, argumentam e analisam são menos suscetíveis à manipulação. Porém, sistemas excessivamente burocráticos tendem a valorizar mais a obediência do que a criatividade.

A literatura brasileira oferece inúmeros alertas sobre esse fenômeno. Em muitas obras de Machado de Assis, percebe-se uma crítica fina às aparências sociais e à superficialidade intelectual. O que vale não é necessariamente o conhecimento verdadeiro, mas a impressão de possuí-lo. Quantos diplomas não escondem, às vezes, uma gigantesca pobreza de pensamento?

A música popular brasileira também parece perceber essa contradição. Quando Raul Seixas cantava “prefiro ser essa metamorfose ambulante”, defendia a capacidade de mudar, refletir e reconstruir ideias. Já Belchior lembrava que “viver é melhor que sonhar”. Talvez possamos adaptar a frase: compreender é melhor que decorar. Afinal, a educação deveria servir à vida, e não apenas aos boletins.

O resultado dessa cultura é visível. Muitos concluem a educação básica sem domínio adequado da leitura e da escrita. Outros chegam ao ensino superior acumulando resumos, apostilas e certificados, mas sem desenvolver plenamente a capacidade argumentativa. O problema não é a falta de esforço dos estudantes; é a lógica que transformou o conhecimento em mercadoria de consumo rápido, descartável logo após o uso.

Talvez a verdadeira revolução educacional comece quando alunos e professores deixarem de perguntar apenas “o que vai cair na prova?” e passarem a perguntar “o que vale a pena compreender?”. Nesse dia, a escola deixará de ser uma estação de passagem e voltará a ser aquilo que os grandes educadores sempre sonharam: um lugar onde o pensamento floresce, a curiosidade respira e a memória deixa de ser um depósito para tornar-se parte viva da existência.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.