Por: Rodrigo Segantini*
Em 16 de julho passado, durante um show do Coldplay em Massachusetts, EUA, o que era pra ser um momento de leveza virou um retrato doloroso do que acontece quando se escolhe o atalho da mentira. Como é tradição em grandes eventos esportivos e nos shows desta banda, casais são filmados aleatoriamente e têm suas imagens exibidas em um telão enorme, na expectativa de que se beijem. É a chamada Kiss Cam. No entanto, desta vez, a imagem que deveria provocar alegria e alívio se tornou o estopim de um escândalo.
O casal flagrado abraçado não deveria estar ali, pois são casados com outras pessoas. Surpreendidos com a exposição, tentaram se esconder. Em vão. Os poucos segundos em que seus rostos ficaram visíveis foram suficientes para identificá-los e dar início à ruína de suas vidas pessoais e profissionais, além de trazer à tona uma discussão ética necessária.
Não se trata de condenar o sentimento. Se é amor que os une, então que vivam esse amor. Mas que o façam com verdade e responsabilidade. Porque o amor verdadeiro jamais nasce da traição e do engano. O erro não está em amar, está em trair, em ferir aqueles que confiavam em sua fidelidade, em quebrar promessas feitas diante dos filhos, que agora precisarão lidar com a dor de ver o que tinham sendo arrancado por um capricho escondido.
O mais triste de tudo é perceber como a escolha pelo que é proibido e passageiro tem o poder de arrasar o que é duradouro e sólido. É fácil se deixar levar pelo calor do momento, pela ilusão de liberdade, pela fantasia do desejo secreto. Mas é nesse exato instante que se joga fora uma vida inteira de conquistas silenciosas, como jantares em família, filhos que crescem e prosperam, mãos dadas que envelhecem juntas.
O casal foi flagrado e exposto ao mundo, mas a verdade é que a câmera só registrou o que já estava errado muito antes da lente apontar para eles. Nem sempre nos lembramos disso, mas sempre há alguém olhando, mesmo quando achamos que ninguém está vendo. As câmeras dos celulares ou dos estádios apenas capturam aquilo que a consciência vigia. E o que os outros observam para alimentar sua sanha por fofoca é, na verdade, a lembrança dos nossos filhos, é a presença de Deus, que nos observa o tempo todo.
Guardemos esse episódio não para condenar ainda mais quem errou, mas para refletir sobre as famílias que foram feridas por esse erro brutal. Repito, não o erro do flagra, mas o erro do ato em si. Que isso nos leve a olhar com mais clareza para os desvios silenciosos em nossas próprias vidas, para os pequenos enganos que justificamos em nome do prazer, da pressa, da solidão. Porque o anonimato e o sigilo que achamos ter não existem. E é sempre melhor ser verdadeiro o tempo todo do que ser alcançado, tarde demais, pela Verdade.



