Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**
Virou senso comum repetir que a juventude “não quer trabalhar”. A frase se espalha com facilidade porque transforma um problema estrutural em defeito geracional. Mas o desconforto da nova geração não nasce da recusa ao esforço. Nasce da percepção de que o trabalho, como foi organizado nas últimas décadas, deixou de oferecer horizonte.
Jornadas extensas, salários comprimidos, custo de vida crescente, ausência de previsibilidade e uma promessa meritocrática que já não se confirma na prática corroeram a ideia de recompensa futura.
A recusa não é ao trabalho. É a um modelo que exige cada vez mais e devolve cada vez menos.
O paradoxo aparece em outro movimento simultâneo. A mesma juventude que critica as condições de trabalho demonstra crescente adesão a pautas econômicas conservadoras. Não necessariamente por convicção ideológica sofisticada, mas por instinto de sobrevivência.
Quem cresce em um ambiente de inflação persistente, moradia inacessível e insegurança permanente passa a buscar estabilidade onde ela parece existir. E hoje a estabilidade é vendida pelo discurso do conservadorismo econômico.
É nesse terreno que prosperam experiências como a de Javier Milei, na Argentina. Sob a bandeira da “liberdade econômica”, reduzem-se impostos sobre consumo e patrimônio de alta renda enquanto se flexibilizam direitos trabalhistas e se ampliam jornadas sob o argumento da livre negociação. Mas negociação pressupõe equilíbrio entre as partes — algo inexistente quando o trabalhador escolhe entre aceitar condições precárias ou perder a renda necessária para sobreviver. Nesse cenário, a liberdade opera em sentido único.
No Brasil, o contraste também é revelador. Propostas de redução da jornada semanal e o debate sobre o fim da escala 6×1 enfrentam resistência imediata, cercadas por alertas sobre impactos econômicos e apelos à prudência fiscal. Ao mesmo tempo, medidas destinadas a aliviar custos do topo da pirâmide frequentemente encontram tramitação veloz e defesa apaixonada. A mensagem implícita é dura: o tempo de vida de quem trabalha continua sendo tratado como variável secundária.
A juventude percebe que existe algo profundamente desalinhado nesse modelo. Já não acredita no velho pacto do “trabalhe mais hoje para viver melhor amanhã” porque o amanhã parece constantemente adiado.
Ainda assim, ao rejeitar agendas que defendem limites de jornada, fortalecimento trabalhista e proteção social, termina alimentando o mesmo sistema que a sufoca — um sistema que naturaliza trabalhar mais, por mais tempo e com menos segurança, vendendo isso como autonomia individual.
Não se trata de preguiça. Tampouco de incoerência moral. Trata-se de pragmatismo em um ambiente de medo econômico permanente. O problema é que esse pragmatismo, capturado pelo conservadorismo econômico contemporâneo, acaba reforçando exatamente as estruturas que tornam o trabalho cada vez menos sustentável para quem está entrando agora no mercado.
Em cidades do interior, como Taquaritinga, onde o horizonte profissional costuma ser ainda mais estreito, esse fenômeno ganha contornos mais profundos. Com poucas oportunidades no setor privado, baixa capacidade de absorção econômica e escassez de perspectivas concretas de mobilidade social, o discurso simplificador da extrema-direita encontra terreno fértil para avançar.
Em ambientes marcados pela frustração cotidiana e pela ausência de projetos estruturantes de desenvolvimento, torna-se mais confortável atribuir toda a responsabilidade ao Governo Federal do que confrontar a estagnação histórica das políticas públicas locais — muitas vezes perpetuada pelas mesmas elites políticas e econômicas de sempre.
A precariedade é tão naturalizada que o próprio conceito de sucesso passa a ser reduzido à proximidade com a máquina pública. Em muitas dessas cidades, ascender socialmente já não significa empreender, inovar ou construir alternativas econômicas sustentáveis, mas conquistar espaço dentro do status quo municipal — seja como funcionário, prestador de serviço ou figura politicamente conectada à estrutura de poder vigente. Cria-se, assim, um ciclo de dependência silenciosa: a ausência de futuro alimenta o conformismo, e o conformismo preserva exatamente o modelo que impede o surgimento de um futuro diferente.
Talvez o verdadeiro incômodo não seja a juventude. Talvez seja o fato de ela expor, sem filtros, que o modelo de trabalho envelheceu mal. E insistir nele, em nome da “liberdade”, pode significar apenas transferir o custo — físico, emocional e financeiro — para quem ainda nem começou a chegar.



