terça-feira, 2 junho, 2026

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Crônica: Entre livros e culpas – o desafio em ser professor

Por: Sérgio Sant’Anna*

Havia um tempo em que o professor entrava na sala de aula carregando livros; hoje, entra carregando culpas. Culpa pela nota baixa, pelo silêncio do filho em casa, pela ausência de limites, pela ansiedade adolescente e até pela indisciplina que nasceu muito antes do toque do sinal.              A lousa tornou-se tribunal, e o giz, testemunha de um esgotamento coletivo. Enquanto isso, os pais, muitas vezes ausentes na construção afetiva do lar, terceirizam à escola aquilo que outrora pertencia à família: o ensinar a respeitar, a ouvir, a esperar e a existir em sociedade. No século XIX, o Realismo já denunciava a hipocrisia social. Machado de Assis, com sua ironia fina, talvez observasse o cenário contemporâneo como quem encara um espelho rachado: todos enxergam defeitos, mas ninguém assume a própria imagem. O professor, nesse teatro moderno, tornou-se personagem conveniente para carregar fracassos coletivos. É mais fácil acusar quem corrige provas do que quem nunca corrigiu os próprios excessos diante dos filhos.

As tecnologias, que deveriam servir como pontes para o conhecimento, converteram-se em muralhas invisíveis entre aluno e aprendizagem. O celular vibra mais alto que a voz do docente; o vídeo de quinze segundos parece mais sedutor do que anos de leitura e reflexão. Zygmunt Bauman chamou nosso tempo de “modernidade líquida”, e talvez jamais a metáfora tenha sido tão precisa: escorrem pelos dedos a paciência, o foco e a profundidade. Tudo precisa ser imediato, inclusive o saber. O professor, porém, continua trabalhando com o tempo lento das sementes.

Há algo de profundamente cruel em exigir que o educador dispute atenção com algoritmos cuidadosamente programados para viciar. A sala de aula tornou-se arena. De um lado, o professor tentando apresentar Dom Casmurro; do outro, uma enxurrada de vídeos, notificações e distrações coloridas. E quando o aluno fracassa, o dedo aponta para quem preparou a aula, não para quem transformou o quarto do filho em território sem limites.

Jean-Paul Sartre dizia que somos responsáveis por aquilo que fazemos com o que fizeram de nós. Entretanto, muitos pais parecem ter reinterpretado a frase de forma conveniente: transferem à escola a obrigação de reconstruir aquilo que o próprio ambiente doméstico ajudou a desmoronar. Querem professores motivadores, psicólogos, mediadores emocionais, influenciadores digitais e, de preferência, sorridentes diante do caos.

O Romantismo idealizou o professor como figura quase sacerdotal; o Naturalismo, por sua vez, lembraria que o homem também é produto do meio. E que meio temos criado? Casas silenciosas de diálogo e barulhentas de telas. Famílias conectadas ao wi-fi e desconectadas entre si. Crianças que conhecem atalhos de aplicativos, mas não suportam ouvir um “não”. Então a escola recebe alunos feridos por ausências emocionais e precisa ensinar gramática enquanto remenda vazios afetivos.

O mais doloroso é que muitos docentes continuam amando o ofício. Permanecem preparando aulas na madrugada, corrigindo redações aos domingos e tentando acreditar que ainda vale a pena. Há um heroísmo silencioso no professor brasileiro, semelhante ao do personagem trágico das antigas peças gregas: sabe da batalha perdida, mas entra em cena assim mesmo. Talvez porque ensinar seja uma forma de esperança.

Paulo Freire defendia que a educação transforma o mundo porque transforma as pessoas. Contudo, esquecem-se de que o educador também precisa ser cuidado para continuar transformando alguém. Não há revolução pedagógica possível quando o mestre está emocionalmente exausto, socialmente desacreditado e financeiramente desvalorizado. A romantização da docência tornou-se outra forma de violência.

Durante a Revolução Industrial, máquinas passaram a substituir homens em inúmeras funções. Hoje, há quem sonhe substituir professores por inteligências artificiais e plataformas automáticas, como se educar fosse apenas despejar conteúdos. Entretanto, nenhuma tecnologia consegue perceber o olhar entristecido de um aluno em silêncio, nem compreender a angústia escondida atrás de uma indisciplina repentina. O professor ainda é humano em um tempo que desaprendeu a humanidade.

E, paradoxalmente, enquanto mais se critica o docente, mais se exige dele. Querem resultados escandinavos em salas superlotadas; querem excelência em ambientes adoecidos; querem alunos leitores em lares onde ninguém lê. A sociedade cobra da escola aquilo que ela mesma deixou de oferecer. Talvez Hannah Arendt estivesse certa ao afirmar que a crise da educação nasce quando os adultos renunciam à responsabilidade pelo mundo que entregam às crianças.

No fim da tarde, quando o corredor da escola silencia, sobra apenas o cansaço. Um cansaço antigo, acumulado entre planejamentos, cobranças e olhares de desconfiança. Ainda assim, no dia seguinte, o professor retorna. Retorna porque acredita que uma frase pode mudar destinos, que um livro pode salvar alguém do abismo e que educar continua sendo um ato de resistência. Talvez seja justamente isso que torne os professores tão perigosos para uma sociedade superficial: eles ainda insistem em ensinar profundidade.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.