sábado, 18 julho, 2026

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Artigo: A Argentina disputa uma final de Copa; o Brasil procura sua própria seleção

Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**

A Argentina está novamente na final da Copa do Mundo. E, gostem ou não os brasileiros, não foi por acaso. Enquanto o Brasil coleciona desculpas, a Argentina coleciona vitórias.

Atual campeã mundial, a seleção argentina chegou à decisão de 2026 com uma campanha impecável. Contra a Inglaterra, mostrou mais uma vez aquilo que tem definido sua geração vencedora: competitividade, disciplina tática e uma crença quase obstinada de que nenhum jogo está perdido até o apito final. Na semifinal, saiu atrás no placar e buscou a virada nos minutos derradeiros, vencendo por 2 a 1 e garantindo presença em mais uma final mundial.

É importante deixar algo claro: não se trata de transformar a Argentina em exemplo moral. O país vive intensos debates políticos, enfrenta dificuldades econômicas e sua torcida carrega episódios lamentáveis de racismo e violência que merecem condenação inequívoca. Nada disso deve ser romantizado.

Mas dentro das quatro linhas existe uma diferença gritante. A Argentina construiu uma identidade. O Brasil a perdeu.

Os argentinos sabem exatamente como jogam. Sabem sofrer, pressionar, marcar, competir e aproveitar cada oportunidade. Não dependem apenas de talento. Dependem de organização. Dependem de compromisso coletivo. De jogadores que parecem entender que vestir a camisa da seleção é um privilégio, não um contrato publicitário.

O Brasil, ao contrário, transformou o improviso em filosofia. Durante anos acreditou que a simples existência de craques resolveria tudo. Esqueceu que o futebol moderno exige método, intensidade e disciplina. Enquanto outras seleções evoluíram, a Seleção Brasileira continuou vendendo a nostalgia de um passado glorioso.

A eliminação precoce para a Noruega nas oitavas de final escancarou essa realidade. A Argentina não venceu porque tem jogadores infinitamente superiores aos do Brasil. Vence porque funciona como equipe. Porque corre quando precisa correr. Marca quando precisa marcar. Porque entende que talento sem sacrifício é apenas entretenimento.

Há um incômodo em assistir à Argentina atual. Ela lembra ao Brasil aquilo que o próprio Brasil já foi.

Raça. Fome de vitória.

Palavras que durante décadas definiram seleções brasileiras históricas e que hoje parecem ter atravessado a fronteira. O resultado está aí.

Enquanto os argentinos disputam mais uma final do mundo, os brasileiros assistem pela televisão, debatendo culpados, trocando treinadores e prometendo uma reconstrução que nunca chega. A diferença não está na sorte-, está na mentalidade.

Por trás da rivalidade esportiva entre Argentina e Inglaterra, ainda existe também a disputa pela soberania das Ilhas Malvinas (em inglês, Falkland Islands), um tema que continua sensível e politicamente relevante.

As ilhas, localizadas no Atlântico Sul, são administradas pelo Reino Unido desde 1833, mas são reivindicadas pela Argentina, que as considera parte de seu território. O conflito atingiu seu ponto mais dramático em 1982, quando a Argentina ocupou as ilhas e o Reino Unido respondeu militarmente, desencadeando a Guerra das Malvinas. O conflito durou cerca de dez semanas e terminou com a retomada das ilhas pelos britânicos. A guerra deixou marcas profundas na sociedade argentina e influenciou a forma como muitos argentinos enxergam o Reino Unido. Por isso, confrontos esportivos entre seleções dos dois países frequentemente ganham um significado que vai além do esporte. Um exemplo emblemático foi a partida da Copa do Mundo de 1986, vencida pela Argentina, marcada pelos gols de Diego Maradona — incluindo a famosa “Mão de Deus” e o chamado “Gol do Século”.

No fim das contas, Argentina e Inglaterra transformaram uma disputa territorial em guerra, uma rivalidade histórica em combustível esportivo e uma memória nacional em identidade. Já o Brasil, abençoado pela geografia e poupado de conflitos externos relevantes, talvez tenha ficado sem batalhas para contar. Restou ao país buscar no futebol suas guerras simbólicas, onde a camisa substitui a farda e a derrota continua a nos assombrar..E se Argentina perder na final? A resposta é simples: – cai em pé!…

*Raphael Anselmo é economista.

**Gustavo Girotto é jornalista.

***Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.