sábado, 18 julho, 2026

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Artigo: O sumiço da indignação

Fiasco na Copa confirma que o país padece de apatia contagiosa

Por: Augusto Nunes* e Eliziário Goulart Rocha**

O escrete é a pátria em chuteiras e calções”, repetia Nelson Rodrigues, para quem a seleção brasileira transcendia os limites do esporte: era a cara do país do futebol, a síntese perfeita de um povo nascido para enfiar uma bola na rede, entre as pernas do marcador e onde mais se fizesse necessário. Caso tivesse vivido para testemunhar o desempenho na Copa do Mundo da seleção pentacampeã, o que estaria dizendo o grande cronista? Não faria sentido atribuir o fracasso no jogo contra a Noruega ao velho complexo de vira-lata. Mais: o escrete está mais parecido do que nunca com a nação que representa. Pois é aí que mora o problema. Faltou ao time precocemente excluído da Copa o que anda faltando em todo o Brasil destes tempos estranhos.

O fiasco foi precipitado pela ausência de líderes brilhantes, atletas superdotados, planejamento correto. No confronto com os noruegueses, faltou sobretudo a espécie de altivez que encara com indignação a hipótese da rendição sem luta. Todos sucumbiram à apatia paralisante. Também não houve indignação por parte dos brasileiros nas arquibancadas ou espalhados pelo território nacional. Os decepcionados preferiram atravessar a semana caçando culpados pela tragédia deste 5 de julho.

Teria sido o pênalti desperdiçado por Bruno Guimarães? O gol que Endrick perdeu? A ausência de Neymar no primeiro tempo? A presença de Neymar no segundo tempo? A dupla de zagueiros contemplando Haaland enquanto o viking artilheiro preparava sem pressa o segundo gol? As substituições feitas pelo técnico italiano? As que deixou de fazer? Nenhum dos incontáveis doutores em futebol interrompeu a conversa com o tipo de verdade que Nelson Rodrigues batizou de óbvio ululante. Por exemplo: a Noruega ganhou porque jogou melhor. Não custa acrescentar que a vitória começou a desenhar-se quando os algozes entenderam que enfrentavam prisioneiros da apatia.

Cair fora da Copa já na disputa das oitavas de final é sempre uma humilhação no país que só aplaude o vencedor. “No Brasil, um segundo colocado é o primeiro dos últimos”, resume o tricampeão de Fórmula 1 Nelson Piquet. De qualquer forma, o adiamento do hexa não tornou o Brasil mais desenvolvido ou menos endividado. Ganhando ou perdendo, continuaria ocupando a mesma posição em rankings mais relevantes que os da FIFA. Embora reiterem que vamos de mal a pior, tais números são recebidos com descaso pelos governantes e com indiferença por incontáveis governados. É verdade que, em casa ou no bar, muitos reclamam, se queixam ou lamentam. Mas são raríssimos os que reagem com efetiva indignação.

Os desinformados creem que Deus proverá ou confiam no socorro prometido por um presidente que capricha na fantasia de Pai dos Pobres que esconde a Mãe dos Ricos. Entre os que veem as coisas como as coisas são, milhões engolem com desmoralizante passividade um Supremo Tribunal Federal fora da lei, a roubalheira que alvejou aposentados e pensionistas do INSS, os 37 impostos criados ou anabolizados pelo governo Lula S, as 2,5 mil empresas em recuperação judicial, o endividamento de mais de 80% das famílias brasileiras, o rombo de R$ 50 bilhões aberto pelo falecido Banco Master no Fundo Garantidor de Crédito ou o pântano da corrupção onde chapinham, atraídos pelo vigarista Daniel Vorcaro, figurões dos Três Poderes. Fora o resto.

Esse entorpecimento coletivo ajuda a encarar sem perplexidade o naufrágio do Brasil no ranking mundial da educação (65° colocado em matemática, 62° em ciências e 52° em leitura na mais recente avaliação de estudantes de 81 países). Mais que a metade dos jovens são incapazes de compreender textos básicos. São analfabetos funcionais quase 30% dos brasileiros com 15 a 64 anos de idade. Sete em cada dez nascidos há 15 anos são incapazes de resolver problemas matemáticos elementares. “Sabe por que o Brasil tem tanto analfabeto?”, pergunta Lula num vídeo recente. “Porque nenhum governo se preocupa com educação neste país”, responde o único presidente da República que não sabe escrever e jamais leu um livro da primeira palavra ao ponto final.

Haja cinismo. Neste primeiro quarto de século, Lula e Dilma Rousseff somaram 17 anos e seis meses no poder. Segundo o maridão de Janja, Fernando Henrique Cardoso, Michel Temer e Jair Bolsonaro conseguiram no pouco tempo que sobrou multiplicar extraordinariamente o número de lulas e aumentar a multidão de dependentes do Bolsa Família. Para esse eleitorado majoritariamente petista, a vida consiste em não morrer de fome. Na Noruega, o salário mensal médio é dez vezes maior que o pago por aqui. E a inflação brasileira atingiu o dobro do índice norueguês.

Quem vive na Noruega se esforça para acreditar nas proezas dos ministros do Supremo Tribunal Federal. Alexandre de Moraes ainda não deu um pio sobre o contrato de R$ 129 milhões assinado por sua mulher, Viviane Barci, e Daniel Vorcaro, pivô do maior doe escândalos financeiros. A inclusão de uma bacharel medíocre na lista das advogadas mais bem remuneradas do mundo é justificada por uma cláusula não escrita. Ficou combinado que os honorários advocatícios recordistas incluíam a compra, o aluguel ou o arrendamento da simpatia incondicional de Moraes. O ministro fez o que pôde para atender ao cliente. A polícia chegou primeiro.

Moraes também não abriu o bico para tentar justificar o sequestro da Lei da Dosimetria, promulgada pelo Congresso em 8 de maio e confiscada no dia seguinte por decisão monocrática. A entrada em vigor do texto legal reduziria de maneira expressiva as penas aplicadas aos acusados pelos barulhos do 8 de janeiro. Lei alguma devolverá a vida a Cleriston Pereira da Cunha, o Clezão, que morreu em 2023 quando cumpria prisão preventiva na Papuda. Mas abrandaria o calvário imposto aos sobreviventes e talvez inibisse a perseguição movida por Moraes a seus alvos preferenciais. Um deles é Eduardo Tagliaferro, condenado sem julgamento pelo crime de revelar as ilegalidades colecionadas pelo ministro em busca de pretextos para punir inocentes. Uma das vítimas foi a revista Oeste.

A dissolução moral do STF começou há mais de sete anos, quando Marcelo Odebrecht revelou que Amigo do Amigo do Meu Pai era o codinome usado por Dias Toffoli para pecar em sossego. O ministro revidou com a criação do Inquérito do Fim do Mundo e a escolha de Moraes para o posto de relator (além da devolução aos corruptores dos bilhões de reais que haviam prometido entregar nos acordos de delação premiada). Passados 2.675 dias, o monstrengo “só vai terminar quando acabar”, como anunciou a dupla de togas. O inquérito é a Constituição da democracia à brasileira rascunhada por Moraes e aperfeiçoada por Gilmar Mendes.

Todos os investigados são ultradireitistas, extremistas de direita ou direitistas radicais. Quem vota em Lula está fora. Ao ser localizado no pântano do Master, pendurado numa negociata envolvendo o resort da família, Toffoli nomeou-se relator do caso Master e tentou livrar da cadeia os parceiros de bandalheira. Afastado pelos próprios colegas, está sem abrir a boca há alguns meses.

Gilmar Mendes, depois de louvar ideias de jerico na maratona de entrevistas, resolveu piorar o futebol brasileiro fantasiado de cartola. Desde 2025, o Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), fundado por ele, mantém contrato de prestação de serviço com a CBR. O atual presidente da confederação, Samir Xaud, chegou ao cargo com apoio da família Mendes. Agora, Gilmar quer substitui-lo pelo próprio filho, Francisco Mendes.

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, utilizou aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB) 176 vezes desde que assumiu o comando da casa, em 1º de fevereiro do ano passado. Um voo a cada três dias, sem justificativas para os deslocamentos. Cada congressista, por sinal, tem direito a um pacote mensal de oito passagens aéreas, mais de R$ 12 mil para aluguel de automóveis, R$ 9 mil para combustíveis e quase R$ 3 mil para despesas com táxis, pedágios e estacionamentos. Há outros penduricalhos, entre os quais se destacam apartamentos funcionais disponíveis também para deputados e senadores eleitos pelo Distrito Federal. Como se Brasília ainda estivesse em construção.

Ainda que tenha se livrado da cadeia graças à Lei do CEP, Lula leva o país para o fundo do poço com a mesma desenvoltura com que mente compulsivamente. A gastança desenfreada destinada ao programa Desemprego Zero para a companheirada, a cobrir o rombo das estatais (R$ 7,4 bilhões só neste ano) e a distribuir benefícios (R$ 158 bilhões apenas para o Bolsa Família) afunda cada vez mais a economia.

Lula também segue realizando feitos imaginários. Há uma semana, inaugurou um túnel incluído nas obras de transposição do São Francisco. Sem água. Alegou “erro de cálculo” e qualificou a lei eleitoral de “papagaiada”.

Nas quatro primeiras posições dos profissionais com maior patrimônio médio estão os donos de cartórios (R$ 3,28 milhões), integrantes do Poder Judiciário (R$ 2,93 milhões), do Ministério Público (R$ 2,9 milhões) e membros da diplomacia (R$ 2,52 milhões). Entre os dez primeiros do ranking figuram ainda servidores do Banco Central (BC) e da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Os demais são atletas, produtores rurais, médicos e dirigentes de empresas.

O salário-base mensal de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) é superior a R$ 46 mil mensais. Em tese, nenhum funcionário público poderia ganhar mais. Os salários de juízes, no entanto, podem chegar a R$ 79 mil graças aos penduricalhos. Recentemente o STF proibiu a criação de novos benefícios. Voltou atrás dias depois e abrandou a medida. Nos últimos anos, graças a pagamentos retroativos e benefícios fora dos limites, integrantes do Judiciário chegaram a ganhar mais de um R$ 1 milhão num único mês.

Queixas e reclamações, como ensina a História, reafirmam a impopularidade de governantes, mas não restabelecem a saúde de instituições em frangalhos ou governos em decomposição. Neste inverno, o Brasil respira por aparelhos, devastado pela onipresença dos corruptos, pela insegurança anabolizada por organizações narcoterroristas em acelerada expansão, pela deterioração da economia, pela prepotência do Poder Judiciário, pela deterioração dos valores morais, pela justificada sensação de que autoridades de todos os Poderes só pensam em dinheiro – pela desesperança generalizada, enfim. O ponto de combustão está logo ali. Alcançado, será inevitável outra onda de indignação.

Foi assim em 1984 com o movimento pela volta das eleições presidenciais diretas. A primeira manifestação ficou parecida com comício em grotão. Depois de um mês, centenas de milhares de indignados promoveram nas imediações da Candelária, no Rio, o maior ato público do século 20. Assim seria em 2015, quando um ínfimo aumento nas tarifas do transporte paulistano gerou as maiores aglomerações populares ocorridas desde o Descobrimento. Os centavos a mais foram só a faísca. Acesa a chama, a fogueira mostrou que os que se acham condenados à eterna impunidade haviam ultrapassado os limites do suportável. Aquela explosão foi o começo do impeachment de Dilma Rousseff.

Neste julho de 2026, a temperatura parece próxima da alcançada em 2013. Se a indignação balizar as escolhas do eleitorado, as urnas de outubro revogarão a apatia endêmica e apressarão os trabalhos de parto de um Brasil mais respirável. Goste-se disso ou não, é sempre o povo que decide nas ruas o destino de uma nação.

*Augusto Nunes é jornalista e Integrante do Conselho Editorial de Oeste, foi redator-chefe da revista Veja e diretor de redação do Jornal do Brasil, do Estado de S. Paulo, do Zero Hora e da revista Época. Atualmente, é colunista da revista Oeste e integrante do programa oeste Sem Filtro. Apresentou durante oito anos o programa Roda Viva, da TV Cultura.

**Eliziário Goulart Rocha é Editor-executivo de Oeste, trabalhou em veículos como o jornal Zero Hora/Grupo RBS, as revistas Época e Forbes. Atuou como colaborador, entre outras publicações, do Jornal do Brasil e da Veja.com. Escreveu e editou dezenas de livros para empresas e instituições, além de títulos próprios de ficção.

***Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.