Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**

Há uma diferença fundamental entre amar um país e amar um projeto de poder. Quem ama o Brasil defende suas instituições mesmo quando discorda delas.
Quem ama apenas o poder aceita que qualquer um as ataque, desde que o ataque beneficie seu lado político.
Foi exatamente essa contradição que voltou a ficar evidente quando o presidente argentino Javier Milei subiu no palco de um evento partidário no Brasil para atacar o governo brasileiro, integrantes das instituições nacionais e participar de um ambiente claramente inserido na disputa eleitoral brasileira. Não se trata de impedir críticas. Brasileiros têm o direito — e muitas vezes o dever — de criticar seus governantes, o Congresso, o Supremo Tribunal Federal ou qualquer outra instituição. Essa liberdade é parte da democracia.
Mas um chefe de Estado estrangeiro não ocupa a mesma posição que um cidadão brasileiro.
Ele não fala apenas por si. Fala em nome de uma nação. Carrega consigo responsabilidades diplomáticas que existem justamente para preservar o respeito entre Estados soberanos.
É precisamente por isso que o episódio ultrapassa a esfera da simples divergência ideológica.
Mais uma vez, setores da extrema direita demonstram que seu discurso nacionalista termina exatamente onde começam seus interesses políticos. O patriotismo exaltado desaparece quando um líder estrangeiro resolve subir a um palanque em território brasileiro para desqualificar autoridades e instituições nacionais.
O que deveria provocar indignação é recebido com aplausos.
A soberania nacional deixa de ser um valor e passa a ser um detalhe inconveniente.
Imagine a situação inversa. A seleção argentina é recebida oficialmente no Brasil para uma celebração esportiva. Em vez de exaltar a rivalidade histórica entre os dois países, o principal representante da delegação argentina pega o microfone para afirmar que o futebol brasileiro é indigno, ridiculariza nossos símbolos esportivos e transforma a cerimônia em um espetáculo de desprezo ao país anfitrião. Ao final, meia dúzia de brasileiros, consumidos pelo ódio aos próprios compatriotas, levanta-se para aplaudir.
A maioria dos brasileiros consideraria essa cena constrangedora. Não porque argentinos não possam criticar o futebol brasileiro, mas porque existe um limite entre a rivalidade legítima e o desrespeito institucional.
Na política internacional esse limite também existe.
Um chefe de Estado pode discordar profundamente do governo de outro país. Pode fazê-lo em fóruns diplomáticos, em declarações oficiais e em debates internacionais. O que rompe uma tradição básica das relações entre Estados é utilizar o território do país visitado como palanque para interferir em sua disputa política doméstica.
Quem realmente colocasse o Brasil acima das disputas partidárias teria reagido de forma diferente. Teria interrompido o espetáculo e dito, em alto e bom som: “Aqui não. O Brasil se respeita.”
Não porque fosse proibido discordar do governo brasileiro, mas porque nenhum presidente estrangeiro deveria ser incentivado a usar solo brasileiro para atacar as instituições brasileiras.
Infelizmente, a reação foi outra. Aplausos, celebraço e até quem confundi patriotismo com conveniência política.
Esse talvez seja o aspecto mais revelador do episódio. Os mesmos grupos que frequentemente se apresentam como defensores intransigentes da pátria, da bandeira e da soberania nacional demonstraram, mais uma vez, que esses valores são relativos quando entram em conflito com seus objetivos políticos.
Soberania não é um slogan de campanha. É um princípio das relações internacionais. Ela não existe para proteger governos, mas para proteger o direito de um povo decidir seu destino sem que chefes de Estado estrangeiros transformem eleições nacionais em extensão de suas próprias batalhas ideológicas.
Quem ama o Brasil pode criticar o Brasil. O que não pode é aplaudir quando alguém de fora transforma o país em palco para desrespeitar suas instituições. Porque, nesse momento, o patriotismo deixa de ser convicção e passa a ser apenas um acessório usado conforme a conveniência.
*Raphael Anselmo é economista.
*Gustavo Girotto é jornalista.
**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.




