Por: Sérgio Sant’Anna*
Há pessoas que partem, mas nunca vão embora. Permanecem na maneira como olhamos o céu, no cheiro do café recém-passado, no silêncio das manhãs e nas pequenas gentilezas que aprendemos sem perceber. Meu pai, Luiz Sant’Anna Netto, foi uma dessas pessoas. Em 2020, a Covid-19 levou seu corpo, mas não conseguiu alcançar aquilo que verdadeiramente importa: sua presença continua habitando a memória daqueles que tiveram o privilégio de chamá-lo de pai.
O filósofo Platão dizia que recordar é uma forma de conhecer novamente. Talvez seja por isso que a saudade seja tão rica. Ela não apenas dói; ela também ensina. Quando recordo meu pai, descubro um homem cuja maior herança não foi material, mas afetiva. Seu legado foi construído por gestos discretos, conselhos silenciosos e um amor que dispensava explicações.
Aristóteles afirmava que a virtude nasce do hábito. Meu pai jamais precisou discursar sobre honestidade, trabalho ou respeito. Bastava observá-lo. Sua vida foi uma aula cotidiana sobre dignidade. Existem professores que ensinam em salas de aula; existem pais que transformam a própria existência em uma lição permanente.
O psicanalista Carl Gustav Jung escreveu que aquilo que amamos profundamente torna-se parte de quem somos. Compreendo essa ideia sempre que percebo pequenos traços dele sobrevivendo em mim: uma palavra, uma expressão, uma maneira de enfrentar as dificuldades. A morte interrompe uma biografia, mas não consegue apagar a influência de quem viveu intensamente.
Sigmund Freud, ao refletir sobre o luto, mostrou que o amor não desaparece com a ausência física; ele busca novos lugares para existir. Talvez seja isso que chamamos de memória. Ela transforma lágrimas em lembranças e faz do coração um arquivo onde nenhuma fotografia amarela com o tempo.
Entre tantas paixões de meu pai, havia uma especial pela poesia simbolista de Alphonsus de Guimarães. Ismália parecia encantá-lo porque ali a poesia atravessa o limite entre o real e o sonho, entre a terra e o infinito. Assim como a personagem contempla dois céus, quem perde alguém amado também passa a viver entre dois mundos: um onde permanece a ausência e outro onde floresce a lembrança. A delicadeza de Ismália ensina que a alma humana é feita de profundezas invisíveis. Meu pai encontrava naquela poesia uma beleza serena, quase espiritual, como se cada verso lembrasse que a existência não se resume ao que os olhos conseguem enxergar. Hoje compreendo por que aquela obra lhe era tão cara: ela fala daquilo que apenas o coração consegue traduzir.
O escritor Rubem Alves dizia que “saudade é a alma dizendo para onde ela quer voltar”. Não existe definição mais bonita para aquilo que sinto. Há dias em que a saudade chega silenciosa; em outros, transforma-se numa conversa imaginária em que ainda peço conselhos ao homem que me ensinou a caminhar.
Também me recordo de Mário Quintana, que via a eternidade escondida nas pequenas coisas. Meu pai permanece exatamente assim: numa fotografia antiga, numa risada inesperada, num domingo em família, numa música que toca sem aviso. A eternidade talvez seja isso: continuar vivendo dentro da lembrança de quem ama.
Quando ouço a canção “Pai”, de Fábio Jr., basta a breve invocação “Pai, pode ser…” para que inúmeras lembranças despertem. Algumas músicas não pertencem apenas aos compositores; passam a fazer parte da história de muitas famílias, tornando-se trilha sonora da gratidão e da saudade.
O filósofo Sêneca ensinava que a vida não deve ser medida pela duração, mas pela grandeza. Meu pai não escolheu o momento de partir, vítima de uma pandemia que marcou profundamente a humanidade. Contudo, escolheu diariamente a forma de viver: com trabalho, responsabilidade, afeto e humanidade. Isso nenhuma doença foi capaz de destruir.
Hoje percebo que a maior homenagem que posso prestar a Luiz Sant’Anna Netto não está apenas nas flores, nas fotografias ou nas datas de calendário. Ela está em continuar espalhando o bem que aprendi com ele. Afinal, como escreveu Antoine de Saint-Exupéry, somos responsáveis por aqueles que cativamos. Meu pai cativou uma família inteira.
Se algum dia eu voltar a encontrar meu pai, imagino que não será necessário dizer muitas palavras. Bastará um abraço silencioso. Enquanto esse reencontro permanece no horizonte da esperança, sigo vivendo com a certeza de que o amor verdadeiro desconhece a morte. Há homens que deixam lembranças; outros deixam exemplos. Luiz Sant’Anna Netto deixou ambos. E, por isso, continua vivo, não apenas na memória da família, mas no lugar mais seguro que existe para um pai: o coração de seus filhos.




