sábado, 18 julho, 2026

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Crônica: A síndrome da assistente social

Por: Sérgio Sant’Anna*

Há encontros que parecem acontecer por acaso, mas deixam marcas permanentes. Conheci uma assistente social cujo trabalho não cabia em relatórios, formulários ou visitas técnicas. Seu verdadeiro ofício era enxergar pessoas onde muitos viam apenas problemas. Em cada atendimento havia a delicadeza de quem compreendia que toda história merece ser ouvida antes de ser julgada.

Ela caminhava pelos corredores com a serenidade de quem sabia que transformar o mundo nem sempre exige grandes gestos. Às vezes, basta um olhar acolhedor, uma palavra dita no momento certo ou a disposição de permanecer ao lado de quem perdeu quase tudo, menos a esperança.

Lembrei-me de Paulo Freire, quando escreveu que ninguém educa ninguém sozinho e que todos aprendemos em comunhão. Embora sua missão fosse diferente da sala de aula, ela também educava. Ensinava solidariedade sem discursos e cidadania sem cartilhas, fazendo do respeito o primeiro direito de cada pessoa que encontrava.

Há uma canção brasileira que afirma que é preciso “saber viver”. O verso é breve, mas parece resumir a essência de seu trabalho: viver também significa aprender a cuidar, compreender e dividir o peso das dores alheias sem deixar que elas nos endureçam.

Ao observá-la, percebi que o verdadeiro profissional não é aquele que apenas domina técnicas. É quem transforma conhecimento em serviço. Como escreveu Rubem Alves, educar é um exercício de esperança. Da mesma forma, o trabalho social floresce quando acredita que cada ser humano pode recomeçar.

Foi então que comecei a perceber algo semelhante no cotidiano do professor. Aos poucos, ele deixa de ser apenas alguém que transmite conteúdos. Passa a acolher medos, incentivar sonhos, mediar conflitos e celebrar pequenas vitórias que não aparecem nas provas, mas mudam vidas.

Na sala de aula, o professor também escuta silêncios. Há estudantes que chegam carregando dificuldades invisíveis, e ensinar exige sensibilidade para reconhecer que, antes de qualquer aprendizado, existe uma pessoa pedindo para ser compreendida.

Carlos Drummond de Andrade escreveu que “as pessoas não morrem, ficam encantadas”. Há profissionais que, ainda em vida, já encantam pelo exemplo. A assistente social era uma dessas pessoas. Seu legado não estava apenas nos resultados do trabalho, mas na forma humana com que tratava cada encontro.

Também me veio à memória Ariano Suassuna, que tantas vezes exaltou a dignidade do povo brasileiro. Seu olhar para a cultura e para as pessoas simples dialoga com a missão daqueles que acreditam que toda existência possui valor, independentemente da condição social ou das circunstâncias da vida.

Outra conhecida canção brasileira celebra a certeza de que é preciso ter fé na vida. Sem reproduzir seus versos, seu sentido acompanha o cotidiano de quem trabalha com pessoas: acreditar que sempre existe uma possibilidade de reconstrução, mesmo quando tudo parece perdido.

O filósofo Emmanuel Levinas defendia que a ética começa no rosto do outro. Talvez seja essa a melhor definição tanto para a assistente social quanto para o professor. Ambos aprendem que nenhuma teoria faz sentido se não conduzir ao encontro humano, ao cuidado e à responsabilidade pelo próximo.

Assim, o professor vai se tornando, pouco a pouco, um pouco assistente social, um pouco conselheiro, um pouco mediador e, sobretudo, um construtor de esperanças. Seu quadro-negro deixa de ser apenas um espaço para fórmulas e conceitos; transforma-se em uma janela por onde muitos alunos enxergam possibilidades que antes desconheciam.

Ao recordar aquela assistente social, compreendo que seu maior ensinamento não estava nas palavras, mas no exemplo. Amar o próximo não é um ideal distante, e sim uma prática cotidiana feita de escuta, respeito e presença. Quando o professor leva esse mesmo espírito para a sala de aula, ensina muito mais do que conteúdos: ensina humanidade, e essa talvez seja a mais bela lição que alguém pode oferecer.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.