sábado, 19 setembro, 2026
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Crônica: O país que desaprendeu a ler

Por: Sérgio Sant’Anna*

Há quase três décadas entrei em uma sala de aula carregando livros, jornais, giz — depois vieram os pincéis, os projetores, os computadores e, finalmente, as telas — e uma convicção que ainda não abandonei: ensinar Língua Portuguesa é, antes de tudo, ensinar a pensar. Sou Professor de Redação e Língua Portuguesa, sou Jornalista, mas, acima de qualquer título, sou alguém que aprendeu a desconfiar das certezas fáceis. Quando comecei no magistério, eu encontrava alunos que discutiam personagens, copiavam trechos de livros, perguntavam sobre palavras desconhecidas e chegavam à escola trazendo alguma leitura na memória. Hoje, em muitas salas, antes mesmo de eu terminar a pergunta, há quem pergunte: “Professor, isso vale nota?”. Às vezes, tenho a sensação incômoda de que a pergunta deixou de ser “o que esse texto quer dizer?” e passou a ser “o que eu preciso responder para terminar logo?”.

Não digo isso apenas por nostalgia. Os números são mais eloquentes do que qualquer lembrança de professor. A 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada em 2024 pelo Instituto Pró-Livro, mostrou que 53% dos brasileiros não haviam lido sequer parte de um livro nos três meses anteriores à pesquisa, enquanto apenas 47% eram considerados leitores. Pela primeira vez desde o início da série histórica, os não leitores superaram os leitores. E há um dado ainda mais desconfortável: considerando apenas livros lidos integralmente, o percentual ficou em apenas 27%.

Eu olho para esses números e depois olho para a minha sala de aula. Não consigo separar uma coisa da outra. O menino ou a menina que chega ao Ensino Médio com dificuldades para interpretar um parágrafo não nasceu incapaz de ler; foi, muitas vezes, afastando-se progressivamente da leitura. E a leitura não desaparece de uma hora para outra. Ela vai sendo substituída. Primeiro, por vídeos curtos. Depois, por notificações. Em seguida, por mensagens fragmentadas, imagens, memes, cortes de podcasts, títulos sem textos, opiniões sem argumentos. O problema não é o celular existir. O problema começa quando ele ocupa todos os espaços que antes pertenciam ao silêncio, à concentração, à conversa e ao livro.

A pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024 mostra a dimensão dessa presença digital: 93% das crianças e adolescentes brasileiros de 9 a 17 anos haviam acessado a internet nos três meses anteriores à pesquisa, e 85% dos usuários dessa faixa etária disseram utilizar a internet mais de uma vez por dia. Além disso, 83% dos usuários de internet entre 9 e 17 anos possuíam perfil próprio em pelo menos uma plataforma digital. Não é preciso demonizar a tecnologia para reconhecer uma evidência: estamos diante de uma geração permanentemente conectada, mas conexão não significa necessariamente conhecimento, assim como informação não significa necessariamente formação.

Às vezes, confesso, uso uma expressão que provoca espanto: “cérebro podre”. Não a utilizo para diagnosticar biologicamente ninguém, porque cérebro não apodrece porque um adolescente usa celular. Uso-a como metáfora para uma cultura que pode atrofiar a disposição de pensar quando oferece respostas instantâneas para perguntas que exigiriam tempo, esforço e elaboração. Hannah Arendt nos ensinou a pensar sobre a importância de examinar aquilo que fazemos; Paulo Freire insistiu que ler o mundo precede a leitura da palavra. E Umberto Eco, ao discutir a sociedade da informação, ajudou-nos a compreender que possuir acesso à informação não é o mesmo que saber selecioná-la, interpretá-la e transformá-la em conhecimento.

É nesse ponto que eu sinto a maior contradição da escola contemporânea. Pedimos ao estudante que pense, mas muitas vezes vivemos em uma sociedade que recompensa a velocidade em vez da reflexão. Queremos redações argumentativas, mas o aluno convive diariamente com discursos prontos. Exigimos repertório, mas oferecemos pouco tempo para que ele construa repertório. Cobramos interpretação, mas permitimos que uma pergunta complexa seja respondida em quinze segundos por uma ferramenta digital. E, quando o professor tenta interromper esse automatismo, frequentemente aparece a pergunta: “Mas por que eu preciso aprender isso?”. Eu poderia responder com uma biblioteca inteira. Prefiro lembrar Sócrates: uma vida que não passa pelo exame de si mesma perde uma parte essencial de sua humanidade.

Há, ainda, uma ausência que me incomoda profundamente: a diminuição da cobrança familiar pelo ato de estudar. Não falo de todas as famílias, evidentemente. Conheço pais que lutam diariamente, acompanham tarefas, compram livros, conversam com os filhos e valorizam profundamente a escola. Mas também encontro situações em que o boletim chega e a preocupação é apenas com a nota; o professor envia uma observação e a primeira reação é questionar a escola; o estudante não lê, não estuda, não entrega, não participa — e ainda assim parece existir uma expectativa de que alguém encontre uma solução mágica para o problema. A família, a escola e o estudante formam uma tríade. Quando uma dessas partes abandona completamente sua responsabilidade, as outras duas carregam um peso quase impossível.

Lembro-me de meus primeiros anos de magistério. Há trinta anos, quando eu levava um texto para a sala, era comum encontrar resistência, claro, mas também havia uma relação diferente com o tempo. O aluno podia permanecer diante de uma página sem exigir que ela mudasse a cada três segundos. Hoje, algumas vezes, proponho a leitura de uma crônica de Machado de Assis e vejo olhos procurando uma saída de emergência. Apresento Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Lima Barreto, Graciliano Ramos ou Conceição Evaristo, e há quem pergunte quantas linhas precisa ler. Eu insisto: “Leia o texto”. A resposta, silenciosa, parece dizer: “Professor, não dá para resumir?”.

E eu continuo. Continuo porque acredito que a escola precisa ser justamente o lugar onde o estudante recupera aquilo que a velocidade do mundo tenta lhe roubar: a capacidade de permanecer diante de uma ideia. Mario Sergio Cortella costuma insistir na dimensão ética da educação; Edgar Morin defende uma educação capaz de religar saberes; Paulo Freire lembrava que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para sua construção. Eu penso nesses educadores enquanto corrijo redações. Muitas vezes, encontro vinte linhas escritas sem uma ideia efetivamente desenvolvida. Há palavras, mas falta pensamento. Há conectivos, mas falta relação entre as ideias. Há estrutura, mas falta voz.

O resultado aparece também nas avaliações internacionais. No PISA 2022, aproximadamente 50% dos estudantes brasileiros alcançaram pelo menos o nível 2 de proficiência em leitura, considerado pela OCDE o patamar mínimo para tarefas básicas de compreensão; na média da OCDE, foram 74%. Apenas 2% dos estudantes brasileiros alcançaram o nível 5 ou superior. Esses números não permitem culpar exclusivamente o aluno, muito menos o professor. Eles revelam uma questão educacional ampla, construída ao longo de anos. Quando metade dos estudantes não alcança o nível básico esperado em leitura, não estamos diante de um simples problema de prova: estamos diante de um problema de formação humana.

E então aparece o professor. Ah, o professor! O profissional que precisa convencer o estudante a ler enquanto disputa sua atenção com algoritmos desenhados para capturá-la; que precisa ensinar argumentação em uma sociedade em que opinião frequentemente vale tanto quanto conhecimento; que precisa explicar a importância de escrever quando existe uma ferramenta capaz de produzir um texto em segundos. Ao mesmo tempo, esse professor é muitas vezes cobrado pelos resultados, questionado pelas metodologias, pressionado por famílias, submetido a burocracias e, não raro, tratado como se ensinar fosse apenas cumprir um horário. A sociedade quer que o professor forme cidadãos críticos, mas nem sempre está disposta a reconhecer o trabalho necessário para formar uma consciência crítica.

Como Jornalista, aprendi que uma informação precisa ser confrontada, contextualizada e verificada. Como professor de Redação, aprendi que uma tese precisa de argumentos. Como leitor, aprendi que uma palavra pode esconder um mundo. Por isso me preocupa tanto uma geração que recebe milhares de informações diariamente e, paradoxalmente, pode ter dificuldade para distinguir fato de opinião. A própria avaliação do PISA mostra que os estudantes de níveis mais altos conseguem lidar com textos longos, conceitos abstratos e distinguir fato e opinião com base em pistas implícitas. Ler, portanto, não é apenas decodificar letras. É estabelecer relações, desconfiar, comparar, interpretar, perguntar.

Talvez por isso eu ainda entre em sala de aula com o livro debaixo do braço. Ainda escrevo no quadro. Ainda peço silêncio para que um texto possa falar. Ainda faço perguntas para as quais não existe resposta pronta. Às vezes, quando um aluno finalmente percebe uma ironia de Machado, entende a metáfora de uma canção de Chico Buarque, reconhece uma referência histórica ou constrói sozinho uma tese para uma redação, acontece aquilo que nenhuma inteligência artificial consegue substituir: o instante em que alguém percebe que conseguiu pensar por conta própria. É pequeno, quase invisível. Mas, para mim, esse instante é a própria razão de existir da escola.

Talvez seja por isso que me recordo de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e de 1984, de George Orwell, não como profecias literais, mas como advertências sobre sociedades em que o pensamento pode ser controlado pela linguagem, pelo entretenimento, pelo excesso de estímulos ou pela manipulação da informação. Lembro-me também de Cazuza cantando “Ideologia, eu quero uma pra viver”, de Titãs perguntando “Você tem fome de quê?”, de Renato Russo falando de uma geração em busca de sentido. São músicas de épocas diferentes, mas todas podem conversar com uma pergunta contemporânea: o que estamos fazendo com nossa capacidade de pensar?

Depois de quase trinta anos diante de estudantes, continuo acreditando que não estamos condenados a produzir uma geração de não leitores. A pesquisa Retratos da Leitura é um alerta, não uma sentença. Ainda há tempo. Tempo para a família voltar a perguntar “o que você leu hoje?” em vez de apenas “qual foi sua nota?”. Tempo para a escola devolver ao livro o lugar que ele merece. Tempo para o estudante descobrir que nem toda pergunta precisa de uma resposta imediata. E tempo, sobretudo, para que a sociedade compreenda que desvalorizar o professor é desvalorizar aquele que insiste diariamente em ensinar uma coisa que nenhum aplicativo deveria fazer por nós: pensar. Eu continuo em sala de aula. Continuo lendo, corrigindo, escrevendo, perguntando e provocando. Talvez porque, depois de trinta anos, eu ainda tenha a esperança de que, em algum momento, um aluno feche o celular, abra um livro e descubra aquilo que aprendi desde os primeiros passos no magistério: quem aprende a ler não apenas decifra o mundo; aprende a não aceitar o mundo como ele está.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.