Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**

Há algo de curioso, para não dizer previsível, no comportamento dos institutos e agentes do mercado financeiro quando se trata de estimar o desempenho da economia brasileira sob o governo Lula. Ano após ano, repete-se o mesmo roteiro: janeiro começa cercado por previsões pessimistas de inflação elevada, crescimento pífio e desaceleração do mercado de trabalho. À medida que os meses avançam, entretanto, os próprios prognósticos são revisados sucessivamente, quase sempre na direção oposta. A inflação esperada cai. O crescimento projetado sobe. O desemprego permanece em níveis melhores do que aqueles inicialmente anunciados.
Ainda assim, no início do ano seguinte, o ciclo recomeça como se nada tivesse acontecido.
Nos últimos anos, o comportamento das expectativas tem seguido um padrão digno de estudo. Não se trata de eventuais erros pontuais, algo natural em qualquer atividade de previsão. O que chama atenção é o viés recorrente. As estimativas partem de um cenário excessivamente pessimista e, mês após mês, precisam ser recalibradas à medida que a realidade se impõe.
A inflação é um exemplo emblemático. A cada início de exercício, surgem alertas sobre descontrole de preços, deterioração fiscal iminente e riscos crescentes de rompimento das metas. Contudo, ao longo do ano, os números frequentemente mostram uma trajetória mais favorável do que a antecipada. Os dados mais recentes mostram desaceleração inflacionária e sucessivas reduções das expectativas futuras por parte dos próprios analistas de mercado. O fenômeno não é novo. O que deveria ser uma exceção transformou-se praticamente em rotina.
O mesmo ocorre com o Produto Interno Bruto. É quase uma tradição nacional assistir às previsões de crescimento começarem modestas e terminarem, significativamente, mais elevadas. Trimestre após trimestre, os indicadores de atividade econômica, consumo, investimento e emprego revelam uma economia mais resiliente do que aquela desenhada pelos modelos econométricos. O resultado é uma sequência de revisões para cima que desmonta parte do pessimismo inicial.
Naturalmente, prever economia não é tarefa simples. Guerras, choques climáticos, oscilações cambiais e mudanças na política monetária alteram cenários constantemente.
O problema não está no erro em si, mas na direção quase sempre coincidente desses erros – independente do contexto internacional. Quando uma estimativa falha sistematicamente para o mesmo lado, talvez seja hora de questionar as premissas utilizadas.
O Brasil tem demonstrado uma capacidade de adaptação frequentemente subestimada. O mercado de trabalho segue surpreendendo positivamente, o agronegócio mantém forte competitividade internacional, o setor de serviços continua expandindo sua participação na economia e a indústria, mesmo enfrentando dificuldades estruturais, mostra resistência diante de um ambiente global complexo. Ainda assim, parte dos analistas insiste em enxergar um país permanentemente à beira da estagnação.
Essa discrepância entre previsão e realidade ganha contornos ainda mais interessantes quando se observam os resultados regionais. Enquanto muitos atribuem exclusivamente a São Paulo o papel de locomotiva econômica nacional, os números recentes mostram um cenário mais diversificado. O Brasil registrou crescimento de aproximadamente 2% em 2025, enquanto São Paulo avançou apenas 0,4%. Isso não diminui a importância econômica paulista, mas evidencia que a dinâmica nacional é mais ampla e depende cada vez mais da contribuição de outras regiões, setores e cadeias produtivas espalhadas pelo país.
Talvez seja chegada a hora de uma reflexão mais profunda por parte dos institutos de previsão. Afinal, se durante três anos consecutivos as expectativas começam superestimando a inflação e subestimando o crescimento, talvez o problema não esteja na economia brasileira, mas nos modelos utilizados para interpretá-la. Previsões econômicas são instrumentos valiosos para empresas, governos e investidores. Justamente por isso, precisam ser constantemente confrontadas com a realidade, sem apego a teses que insistem em não se confirmar.
Quem sabe alguns desses especialistas não se beneficiariam de uma breve aula de economia prática, dessas que desmontam narrativas com números concretos. Algo semelhante ao que o ministro Fernando Haddad procurou fazer com o governador Tarcísio de Freitas durante o debate na Band, ao confrontar discursos com indicadores efetivos de desempenho econômico. Porque, ao fim e ao cabo, a economia tem uma característica inconveniente para quem vive de previsões: ela costuma se preocupar mais com os fatos do que com as expectativas. E, nos últimos anos, os fatos têm sido generosos em desmentir o pessimismo profissional.




