sábado, 22 agosto, 2026
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Crônica: Ambiguidade enroscada

Por:  Sérgio Sant’Anna*

Minha amiga chegou, isso no início dos anos 2000, na República, em São Paulo, com uma sacola de padaria e aquele ar de quem traz uma notícia importante. Tirou de dentro uma rosca, dessas redondas, açucaradas, brilhantes, capazes de provocar fome até em quem acabou de almoçar. Olhou para mim e disse: “Comprei essa rosca para você comer”. Eu agradeci, naturalmente. Afinal, existem amizades que oferecem flores, outras oferecem conselhos; a minha oferecia carboidratos.

A questão é que a frase ficou pairando no ar. “Para você comer.” Havia ali uma inocência gastronômica, mas também uma possibilidade linguística perigosa. Dependendo da entonação, da pausa e da imaginação de quem escuta, uma rosca pode deixar de ser simplesmente uma rosca e transformar-se num problema de interpretação textual. E eu, professor de Língua Portuguesa, imediatamente percebi: aquilo não era uma rosca; era uma oração subordinada cheia de intenções.

Olhei para ela. Ela olhou para mim. A rosca olhou para nós — ou pelo menos parecia olhar, com aquele açúcar brilhando como quem sabe mais do que deveria. Pensei em Luís Fernando Veríssimo, mestre em fazer uma situação absolutamente banal tropeçar numa ambiguidade monumental. Em suas crônicas, o cotidiano frequentemente entra pela porta da frente e sai pela janela carregando uma piada sobre a condição humana. A minha condição humana, naquele instante, era decidir se comia a rosca ou se convocava uma banca examinadora.

Lembrei também de Carlos Drummond de Andrade, que sabia transformar uma pedra no meio do caminho em filosofia; de Rubem Braga, que encontrava lirismo até numa manhã aparentemente sem importância; de Fernando Sabino, que fazia do cotidiano uma espécie de trapalhada elegante; e de Stanislaw Ponte Preta, que certamente teria percebido que determinadas roscas não deveriam ser deixadas sozinhas perto de uma conversa entre adultos. A crônica brasileira sempre soube disso: há mais verdade escondida numa padaria do que em muito discurso solene.

Minha amiga insistiu: “Come!”. Eu quase respondi: “Comer, eu como. O problema é a interpretação”. Porque a língua portuguesa é assim: oferece palavras e depois abandona o cidadão à própria sorte. Uma frase pode ser inocente na boca de quem fala e comprometedora na cabeça de quem escuta. O duplo sentido é o primo inconveniente da linguagem: chega sem ser convidado, senta-se à mesa e ainda pede café.

Foi então que me lembrei dos funks dos anos 1990, quando o duplo sentido era quase uma profissão. Havia letras que diziam uma coisa, sugeriam outra e deixavam uma terceira escondida atrás da batida. O charme estava justamente nisso: o ouvido recebia uma mensagem, enquanto a imaginação, essa senhora sem educação, completava o serviço. Era a semântica dançando de chinelo, enquanto a gramática tentava desesperadamente manter a compostura.

E não era apenas o funk. A música brasileira inteira tem uma longa tradição de brincar com o que se diz e com o que se quer dizer. Chico Buarque fez da ambiguidade uma arte, especialmente quando a voz narrativa parece dizer uma coisa enquanto o contexto denuncia outra. Caetano Veloso também sabe morar nesse território em que a palavra tem mais de uma porta de entrada. E Noel Rosa, muito antes de nós, já havia descoberto que uma boa canção pode fazer rir, pensar e desconfiar da própria interpretação.

Talvez por isso aquela rosca tivesse adquirido uma importância desproporcional. Ela já não era um alimento. Era um signo. Saussure provavelmente teria ficado interessado; Bakhtin, talvez, perguntasse quem estava falando por meio daquela rosca; Freud, se estivesse por perto, certamente levantaria uma sobrancelha. Eu, mais modestamente, apenas queria saber se deveria passar manteiga.

Minha amiga começou a rir. “Você está viajando demais. É só uma rosca!”. “Eu sei”, respondi. “Mas é justamente aí que mora o perigo.” Porque a vida moderna está cheia dessas pequenas coisas que parecem dizer apenas aquilo que dizem. Uma mensagem de celular sem ponto final pode parecer grosseira. Um “tá bom” pode significar concordância, irritação ou uma guerra civil em estágio inicial. Um “depois a gente conversa” pode ser convite ou sentença. E uma rosca pode ser apenas uma rosca — desde que ninguém resolva interpretar além da conta.

Pensei em como somos especialistas em produzir sentidos onde talvez não exista nenhum. Vemos sinais, suspeitas, indiretas e segundas intenções em tudo. Talvez porque tenhamos desaprendido a aceitar o óbvio. Ou talvez porque o óbvio seja sem graça. Afinal, quem quer viver num mundo em que uma rosca é apenas uma rosca, uma música é apenas uma música e uma frase significa exatamente aquilo que está escrito?

No fim, comi a rosca. E devo admitir: estava deliciosa. Tão deliciosa que toda aquela discussão semântica perdeu importância diante da realidade açucarada. Naquele momento, compreendi que algumas ambiguidades se resolvem com análise sintática; outras, com uma mordida. E, entre uma coisa e outra, há sempre um cronista pronto para transformar o absurdo em literatura.

Minha amiga ficou satisfeita. Eu também. A rosca desapareceu, mas deixou uma lição: talvez o verdadeiro problema não esteja naquilo que as pessoas dizem, mas naquilo que nós decidimos entender. Veríssimo teria encontrado uma piada nisso; Rubem Braga, uma delicadeza; Drummond, uma reflexão; Stanislaw, uma malícia. Eu encontrei apenas açúcar nos dedos e uma certeza pedagógica: interpretar texto é perigoso.

Desde então, quando alguém me oferece alguma coisa dizendo “é para você comer”, eu penso duas vezes. Não porque tenha medo da comida, mas porque conheço a língua portuguesa. Ela é traiçoeira, sedutora e cheia de curvas — às vezes, até redonda como uma rosca. E se existe uma verdade que a padaria me ensinou naquele dia é esta: há coisas que a gente compra para comer, mas acaba levando para casa para interpretar.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.