Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**

Há uma espécie de vício brasileiro em acreditar que a história termina na urna. Não termina.
A urna apenas acende a luz de um corredor onde, imediatamente depois do resultado, começam a andar os personagens que passaram meses fingindo que estavam interessados apenas no voto. No Brasil, a eleição é frequentemente o trailer. O filme começa no dia seguinte. Lula sabe disso.
E talvez seja justamente por saber que tenha escolhido começar sua campanha onde tudo começou. São Bernardo do Campo. O Estádio 1º de Maio. A antiga Vila Euclides. O lugar em que o metalúrgico virou líder sindical, o líder sindical virou personagem nacional e o personagem nacional acabou se transformando em Lula — uma das marcas políticas mais poderosas da história brasileira. O estádio não é apenas um endereço. É um argumento.
Foi ali que a memória voltou ao palco. Companheiros das greves dos anos 1970 apareceram. Vídeos antigos foram exibidos. Sócrates, Democracia Corinthiana, Diretas Já, Marisa Letícia, sindicalismo, trabalhadores, mulheres, soberania nacional. Tudo cuidadosamente organizado para produzir aquilo que a política moderna descobriu ser mais eficiente do que um programa de governo: uma memória afetiva.
Lula não apresentou apenas um candidato. Apresentou um personagem. E personagens, como se sabe, não precisam explicar tudo. Precisam ser reconhecidos.
O roteiro foi quase inteiramente escrito no retrovisor. A campanha escolheu o passado para falar do futuro. É uma operação politicamente inteligente: quando o presente é complicado, convoca-se a memória para depor. A mensagem subliminar era simples: antes de Lula existir como presidente, existia Lula como símbolo.
E símbolos têm uma vantagem extraordinária sobre candidatos: não envelhecem na mesma velocidade. O problema é que um país não pode viver eternamente de lembranças.
O Brasil de 2026 não é o ABC de 1979. O trabalhador que estava na Vila Euclides agora carrega um celular no bolso, paga uma conta digital, enfrenta uma economia globalizada, teme a violência, discute inteligência artificial e descobre, todos os dias, que o futuro chegou sem pedir licença. É por isso que o ato de São Bernardo foi tão forte quanto revelador.
Foi uma demonstração extraordinária da força do mito Lula. Mas foi também uma pergunta sobre o que vem depois do mito. A eleição como plebiscito
A próxima eleição será apresentada como muitas coisas: economia, segurança, emprego, inflação, soberania, costumes, direita contra esquerda, Lula contra Bolsonaro. Talvez seja tudo isso.
Mas haverá uma pergunta subterrânea, quase uma pergunta de caráter: quem deve continuar decidindo o destino do Brasil?
É aí que Lula continua sendo uma marca eleitoral extraordinariamente difícil de substituir. O CNPJ político chamado Luiz Inácio Lula da Silva é maior que o próprio PT.
Não é uma questão de simpatia ou antipatia. É uma constatação sobre a natureza da política brasileira. Lula transformou seu nome em uma espécie de instituição. O partido pode perder. Um ministro pode perder. Um candidato pode perder. Lula, não necessariamente.
Fernando Haddad é talvez o exemplo mais evidente. Haddad pode ser competitivo, pode ter governo, currículo, experiência e discurso. Mas disputar uma eleição majoritária em São Paulo é outra conversa. O interior paulista, o agronegócio, a força da direita e a geografia eleitoral do Estado formam uma muralha que não se derruba com uma boa entrevista na televisão.
E, ainda assim, Haddad continuará sendo uma peça importante no tabuleiro. Porque política brasileira não é apenas a arte de ganhar eleição. É a arte de sobreviver ao dia seguinte. E o dia seguinte?
Aqui começa a parte menos romântica. Suponhamos — apenas como hipótese política, porque eleição não se ganha antes da apuração — que Lula vença. O primeiro telefonema será de parabéns. O segundo será sobre a equipe econômica. O terceiro talvez seja sobre o Congresso. E o quarto, provavelmente, sobre o preço da vitória.
Porque a elite brasileira tem uma característica curiosa: consegue tolerar quase tudo, desde que não perca o comando da narrativa. Pode suportar escândalos. Pode suportar desmandos e até personagens extravagantes. Pode até suportar a família Bolsonaro. O que historicamente provoca urticária é a possibilidade de Lula sair de uma eleição como o maior vencedor político de sua geração.
É uma diferença importante. Não se trata apenas de esquerda contra direita. Trata-se de poder. E poder, no Brasil, raramente aceita aposentadoria.
Por isso, a hipótese mais interessante não é necessariamente a de um golpe — palavra grande demais, dramática demais, quase cinematográfica. É algo mais banal. Mais brasileiro. A pressão. O mercado e a política fiscal.
O Congresso e a responsabilidade, déficit, câmbio, a expansão da dívida pública que vira risco e manchete.
O terrorismo econômico de cada manhã. O velho mecanismo pelo qual o país é informado, com a solenidade de um padre anunciando o apocalipse, de que “se isso continuar, o Brasil quebra ”. O Brasil nunca para. Ele apenas muda de fila. O verdadeiro adversário pode estar depois da eleição
É possível que Lula vença a eleição e descubra, no dia seguinte, que a vitória era apenas a primeira batalha. Porque o presidente eleito precisa governar. E governar exige maioria, orçamento e Congresso. Exige o mercado, empresários, governadores, aliados e paciência.
E exige, sobretudo, uma capacidade que os grandes líderes frequentemente não gostam de exercer: dividir o poder. É aí que Geraldo Alckmin aparece como uma figura quase cinematográfica.
O homem que veio da política paulista tradicional, que enfrentou Lula, que depois se tornou seu vice e que agora ocupa um lugar singular na arquitetura do poder. Lula pode ganhar. Mas quem poderá terminar politicamente maior? Essa é a pergunta. Talvez Lula; talvez Alckmin. Talvez ninguém.
Porque há eleições que elegem presidentes e há eleições que reorganizam regimes políticos. O mito contra o futuro.
O mais curioso no ato da Vila Euclides foi exatamente aquilo que o evento pretendia esconder. A força do passado denunciava a dificuldade de falar do futuro. Não é uma crítica moral. É uma constatação política.
A campanha mostrou Lula jovem, Lula sindicalista, Lula perseguido, Lula preso, Lula presidente, Lula novamente presidente.
Mas o eleitor de 2026 quer saber quem será Lula amanhã. É uma pergunta mais difícil. Porque memória é território conhecido. Futuro é território sem mapa.
E Lula sempre foi, extraordinariamente, bom em contar de onde veio. Agora terá de convencer o país sobre para onde pretende levá-lo.
A elite, por sua vez, fará o que sabe fazer. Vai reclamar, ameaçar, calcular.
Vai descobrir algum número assustador e encontrar alguma palavra em inglês para explicar porque o mundo acabará na terça-feira. E depois vai negociar. Porque essa é outra característica brasileira: os inimigos de ontem frequentemente descobrem, na quarta-feira, que sempre foram amigos.
No Brasil, ideologia dura até a primeira reunião no Ministério da Fazenda. Lula sabe.
Talvez seja por isso que Lula tenha escolhido a Vila Euclides. Não apenas para lembrar quem foi. Mas para lembrar aos adversários quem ele continua sendo.
Aquele estádio foi o lugar onde um operário descobriu que podia enfrentar estruturas maiores do que ele. Hoje, o desafio é diferente.
Não há ditadura militar. Não há assembleia de dezenas de milhares de metalúrgicos. Não há o mundo político dos anos de chumbo. Há um país envelhecido politicamente, profundamente dividido, digitalizado, desconfiado e impaciente. E há o Lula. O homem que transformou a própria biografia em capital político. O homem que já foi dado como acabado mais de uma vez e voltou. Agora quer voltar novamente.
Pode vencer ou não vencer. As urnas ainda não falaram — e toda certeza eleitoral antes da urna é apenas uma forma sofisticada de superstição. Mas há uma certeza menos eleitoral e mais histórica: Lula ainda é o Lula.
E talvez seja justamente esse o problema de quem deseja derrotá-lo. Porque derrotar um candidato é relativamente simples. Derrotar o maior vencedor da história política brasileira é outra coisa. E, se o Lula vencer, a verdadeira eleição talvez comece no dia seguinte.
Aí, sim, será preciso descobrir quem terá forças para governar o vencedor. E quem, entre Lula, Alckmin, Congresso, mercado e as velhas elites brasileiras, conseguirá terminar de pé quando a música parar. Porque, neste país, ganhar a eleição é uma coisa. Terminar o mandato é outra. Lula vencerá, mas Alckmin pode terminar presidente. E a elite deste País quer isso (pode apostar). E o Haddad? Será o chefe da Casa Civil…
*Raphael Anselmo é economista.
*Gustavo Girotto é jornalista.
**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.




