sábado, 29 agosto, 2026
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Crônica: O Café de uma Quarta-Feira

Por: Sérgio Sant’Anna*

Há muitos anos, talvez décadas, eu não me sentava, em um dia corriqueiro da semana, para tomar café com a calma de quem não tem o relógio lhe mordendo os calcanhares. E foi justamente numa quarta-feira letiva, dessas que deveriam começar com diário de classe, mensagens, aulas e redações para corrigir, que consegui esse pequeno luxo. Eu tinha consulta com minha médica para buscar um remédio para dormir e outro para a ansiedade. Ironias da vida: precisei de uma consulta para conseguir aquilo que o café sempre soube oferecer — alguns minutos de silêncio.

Sentei-me diante da xícara como quem reencontra um velho amigo. O café estava quente, o pão ainda guardava aquela delicada crocância e, por alguns minutos, ninguém me perguntava sobre nota, prazo, competência, repertório, tese ou proposta de intervenção. Não havia aluno esperando correção, grupo de WhatsApp piscando, aula on-line começando ou plataforma exigindo alguma senha. Eu apenas tomava café. Parece pouco. Para mim, naquela manhã, era quase literatura.

Talvez Machado de Assis sorrisse dessa cena. Afinal, ele sabia como transformar o aparentemente banal em matéria-prima para pensar a existência. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, a vida é narrada com aquela ironia de quem percebe que o ser humano corre muito para chegar, invariavelmente, a algum lugar que não havia planejado. Eu também tenho essa sensação: passo os dias correndo entre dois colégios particulares, quarenta horas de trabalho, aulas on-line e pilhas de redações, como se houvesse uma linha de chegada. O problema é que ninguém me contou onde ela fica.

Sou Sérgio Augusto, professor, e descobri que corrigir redações é uma atividade semelhante à arqueologia: cada texto apresenta ruínas, descobertas, tesouros escondidos e, eventualmente, uma civilização inteira enterrada sob a ausência de pontuação. Leio centenas de linhas procurando tese, argumento, repertório, coesão, coerência. Às vezes encontro tudo. Às vezes encontro apenas uma vírgula perdida, pedindo socorro.

O mais curioso é que ensino meus alunos a organizar o tempo enquanto o meu próprio tempo parece um aluno rebelde que nunca entra na sala. Tenho quarenta horas semanais oficialmente destinadas ao trabalho, mas existe aquela pequena palavra chamada “depois” que transforma quarenta em cinquenta, cinquenta em sessenta e, quando percebo, estou corrigindo redação em casa enquanto a família acredita que estou assistindo televisão. A televisão, coitada, já nem sabe quem sou.

Nas aulas on-line, a situação ganha contornos kafkianos. A câmera ligada, o microfone que não funciona, o aluno que desaparece da tela, a internet que decide participar da aula com opiniões próprias. Franz Kafka provavelmente compreenderia. Em A Metamorfose, Gregor Samsa acorda transformado em inseto; eu, algumas manhãs, acordo transformado em professor de Português, corretor, planejador, digitador, mediador tecnológico e, se der tempo, ser humano.

É aqui que Byung-Chul Han aparece na minha crônica como aquele amigo que chega sem ser convidado, mas diz exatamente aquilo que ninguém queria ouvir. Em Sociedade do Cansaço, o filósofo sul-coreano descreve uma sociedade marcada pelo excesso de desempenho, produtividade e autocobrança. Eu me reconheço nessa fotografia. Sou, ao mesmo tempo, trabalhador e fiscal de mim mesmo. Termino uma tarefa pensando na próxima. Concluo uma aula imaginando a seguinte. Corrijo uma redação já pensando nas outras quarenta.

Talvez seja por isso que Carlos Drummond de Andrade continue tão atual. Quando escreveu “E agora, José?”, não estava apenas perguntando sobre a vida de um personagem literário. Perguntava, de certo modo, o que fazemos quando a festa acaba, quando a máquina para, quando sobra apenas o sujeito diante de si mesmo. Às vezes, no fim de uma quarta-feira, depois de corrigir dezenas de textos, eu também me pergunto: e agora, Sérgio?

A música brasileira parece compreender melhor o meu dilema do que muitos manuais de administração do tempo. Chico Buarque já nos ensinou que “o tempo não para” — e Cazuza transformou a frase em espécie de hino para quem vive numa sociedade que parece ter medo de ficar parado. Mas eu acrescentaria uma provocação: talvez o problema não seja o tempo não parar. Talvez sejamos nós que tenhamos desaprendido a parar com ele.

Lembro também de Adélia Prado, essa extraordinária poeta que tantas vezes encontrou transcendência nas pequenas coisas. Em sua poesia, o cotidiano não é um intervalo entre acontecimentos importantes; é o próprio acontecimento. E foi exatamente isso que aquela quarta-feira me ensinou: tomar café não era desperdiçar tempo. Era viver o tempo. A xícara não estava atrasando meu dia. Estava devolvendo-me uma parte dele.

Há algo profundamente contraditório na profissão docente. Nós ensinamos leitura, mas quase nunca temos tempo para ler. Ensinamos escrita, mas escrevemos relatórios, planejamentos, pareceres, comentários e correções. Falamos sobre interpretação, mas frequentemente interpretamos a própria existência apenas pelos prazos. Somos professores de Literatura e, paradoxalmente, às vezes vivemos como personagens de um romance naturalista: determinados pelo meio, pelo trabalho, pela rotina e pela necessidade de sobreviver ao próximo capítulo.

Os jornalistas também perceberam esse fenômeno muito antes de nós. João do Rio, cronista atento às ruas e às transformações da modernidade carioca, compreendeu que a cidade podia ser uma personagem tão inquieta quanto qualquer ser humano. Rubem Braga, por sua vez, mostrou que uma crônica podia nascer de uma janela, de uma chuva, de uma conversa aparentemente insignificante. Luís Fernando Veríssimo transformou o cotidiano em ironia. E eu começo a desconfiar de que uma pilha de redações também pode ser literatura — desde que alguém consiga sobreviver a ela para contar a história.

O Modernismo brasileiro talvez tenha nos ensinado justamente isso: olhar para o cotidiano sem a obrigação de torná-lo grandioso. Os modernistas romperam molduras, questionaram solenidades e trouxeram a vida comum para dentro da literatura. Eu, naquela manhã, fiz minha pequena revolução modernista: rompi com a tirania do relógio, sentei-me à mesa e deixei o café acontecer. Não foi Semana de Arte Moderna. Foi Semana de Arte de Tomar Café Sem Pressa.

Quando saí para a consulta, o mundo continuava exatamente igual. Os colégios continuavam esperando, as aulas on-line continuavam marcadas, as redações continuavam empilhadas e os alunos continuavam produzindo argumentos sobre os grandes problemas do Brasil. Nada havia mudado — exceto eu. Por alguns minutos, compreendi aquilo que a pressa costuma esconder: não somos máquinas de produtividade. Somos seres humanos tentando administrar uma quantidade absurda de coisas enquanto o relógio finge que tem razão.

Voltei para casa e, naturalmente, corrigi redações. Porque a vida não costuma respeitar finais poéticos. Mas, enquanto lia uma conclusão sobre os desafios da sociedade contemporânea, encontrei uma frase que me fez sorrir: “É preciso aprender a desacelerar”. Parei por alguns segundos. O aluno provavelmente não imaginava que sua redação estava corrigindo o professor.       Fechei os olhos, lembrei daquela xícara de café e pensei que talvez a verdadeira proposta de intervenção para a minha vida fosse bastante simples: reservar, de vez em quando, uma quarta-feira para não correr. Afinal, até o professor que ensina a escrever sobre o mundo precisa, em algum momento, sentar-se diante de uma xícara e simplesmente existir.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.