Por: Nadia Araujo*
Segundo o IBGE, existem no Brasil cinco milhões de pessoas com esse nome. Todo mundo conhece um, mas hoje eu gostaria de falar sobre o meu José. José é meu avô. O pai da minha mãe.
Migrante nordestino, desde muito cedo ele soube o que eram as mazelas da vida. Nascido e criado no sertão, foi batizado com o sobrenome do padrinho — coisa da época —, mas gostava mesmo de ser chamado pelo sobrenome do pai: Louredo. Trabalhou na roça desde pequeno e, assim como seus pais e irmãos, formou uma grande família: dez filhos, sendo cinco meninas e cinco meninos.
Talvez o que já era difícil tenha ficado ainda mais pesado com essa galera toda, mas as dificuldades da vida NUNCA roubaram sua esperança e sua fé. Ao saber que em Brasília e em São Paulo era onde havia trabalho e dinheiro, pegou toda a sua coragem e vontade de vencer para ajudar a construir as maiores capitais deste país. Nessas cidades, há o suor e a dedicação do meu avô.
Mais tarde, encontrou em uma cidade do interior o seu novo lar. Foi ali que comprou sua casa e viu seus vinte e tantos netos nascerem. Trabalhou como pedreiro, na lavoura e até de “zelador” na matriz da cidade; foi ministro da eucaristia e reconhecido como cidadão taquaritinguense.
Fez muitos amigos — muitos mesmo. Isso porque o meu vô é um grande evento; não há quem fique triste perto dele. Estava sempre contando uma história, fazendo rir, ouvindo e dando os melhores conselhos. Seu humor era tão contagiante que, mesmo depois de um acidente de trânsito, estando debilitado, ele ainda nos fazia rir.
Minhas melhores lembranças de infância foram na casa do vô Zé, junto com meus primos. Lembro dele brigando com a gente porque queria dormir ou de quando chegava “meio altinho” — porque o homem não é de ferro e gostava de uma pinguinha. Mas, mais do que isso, meu vô amava tudo o que envolvia o viver: comer, beber, dançar, passear.
E pensa num pé de valsa! Fã de Luiz Gonzaga e devoto de Padre Cícero, ele tinha muito orgulho da sua terra.
Recentemente, meu avô seguiu sua caminhada em outro plano. Um lugar onde é unânime, em todas as religiões, que não sofremos com dor, fome ou tristeza. Talvez a única dor seja a saudade. E que sentimento difícil de entender, não é? Porque o que é a saudade senão a sorte de ter amado e sido amado demais? Meu avô é isso: puro amor. Até porque, para caber tanta gente em seu coração, o amor tem que ser imenso, forte e eterno.
Meu avô deixou o seu “tanto” em todas as pessoas com quem cruzou. No dia da sua despedida deste plano, pude perceber isso claramente: além de ter deixado sua herança genética na família, ele marcou a alma de todos. Os amigos da igreja, do bar, os agregados, os ex-genros, amigos de longa data, vizinhos… TODOS, sem exceção.
Espero, querido leitor, que você tenha tido a oportunidade de conhecer essa figura. E, se não conheceu, não se preocupe: tenho milhões de histórias sobre ele para contar.
Ao seu Zé Louredo: Vô, o senhor disse que sua vida dava uma novela, mas ela daria muito mais que isso. Daria um filme, uma série, um livro, mas pensando bem, tudo parece pequeno perto da sua grandeza. Difícil também encontrar um ator “cabra macho” como o senhor. Não dá. O senhor é insubstituível. Minha mãe disse que escolheria o senhor para ser o papai dela em todas as vidas. Eu também escolheria o senhor para ser o meu José.
Bença, vô.





