Por: Sérgio Sant’Anna*
Há dias em que caminho pelas ruas e tenho a impressão de que a palavra amorfoi esquecida em alguma esquina da história. Ela ainda aparece em músicas, propagandas, discursos e redes sociais, mas parece cada vez mais ausente dos gestos cotidianos. É curioso perceber que, justamente em uma época em que nunca estivemos tão conectados, tornamo-nos especialistas em nos afastar uns dos outros. E então me pergunto: quando foi que desaprendemos a amar?
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han afirma que vivemos na sociedade do desempenho, na qual as pessoas são incentivadas a competir constantemente, transformando até os sentimentos em mercadorias. O amor, porém, exige exatamente o contrário: tempo, vulnerabilidade, escuta e presença. Não se ama com pressa, nem se constrói afeto em meio à lógica da produtividade permanente.
Edgar Morin, falecido recentemente, defende que a humanidade precisa aprender novamente a reconhecer o outro como parte de si mesma. Para ele, a educação do século XXI deve ensinar a compreensão humana antes mesmo das fórmulas e dos algoritmos. Afinal, compreender é um dos verbos mais próximos de amar.
Essa reflexão não é novidade. Desde a Antiguidade, os grandes pensadores procuravam entender o significado do amor. Na filosofia de Platão, ele surgia como uma força capaz de elevar o espírito em direção ao conhecimento. Séculos depois, durante o Humanismo renascentista, o ser humano voltou ao centro das reflexões, recuperando a dignidade da pessoa como valor fundamental. A história da cultura parece repetir, em diferentes épocas, a mesma pergunta: como viver juntos sem perder a humanidade?
As próprias Escolas Literárias registraram essa busca. No Trovadorismo, o amor aparecia idealizado nas cantigas; no Classicismo, representava equilíbrio e harmonia; o Romantismo transformou-o em paixão intensa, capaz de desafiar convenções; o Realismo retirou-lhe as ilusões para revelar suas contradições; já o Modernismo ampliou esse sentimento para além do casal, refletindo sobre o indivíduo, a sociedade e as desigualdades humanas.
Talvez por isso as grandes obras da Literatura Mundial nunca tenham tratado o amor apenas como romance. Em Os Miseráveis, de Victor Hugo, ele assume a forma da compaixão. Em Dom Quixote, de Cervantes, manifesta-se como fidelidade aos próprios sonhos. Em A Divina Comédia, de Dante Alighieri, é o amor que move o universo. A literatura sempre soube que amar é muito mais do que sentir; é decidir cuidar.
Infelizmente, a sociedade contemporânea parece caminhar na direção oposta. A velocidade das informações tornou lenta a empatia. As redes sociais aproximaram telas, mas muitas vezes distanciaram corações. Tornou-se fácil cancelar alguém, difícil compreender; simples responder com violência, complicado oferecer uma palavra de acolhimento. Estamos aprendendo a argumentar menos e a atacar mais.
A escritora e filósofa Martha Nussbaum alerta que uma democracia somente permanece saudável quando cultiva a empatia e a imaginação moral. Sem essas virtudes, o outro deixa de ser uma pessoa para se tornar apenas um obstáculo ou um inimigo. Talvez seja exatamente isso que explique tanta intolerância espalhada em tempos de tanta informação.
A música brasileira também percebeu essa urgência muito antes de nós. Quando Renato Russo escreveu “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”, em Pais e Filhos, não produziu apenas um verso bonito; deixou um lembrete para gerações inteiras. O amanhã nunca foi uma promessa garantida. Por isso, o amor precisa acontecer hoje.
Lembro-me ainda das palavras do apóstolo Paulo, em sua célebre carta aos Coríntios: “Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, sem amor eu nada seria.” Curiosamente, essa antiga mensagem continua desafiando uma sociedade que valoriza tanto o sucesso, a aparência e o reconhecimento, mas que frequentemente esquece o fundamento das relações humanas.
Talvez a maior tragédia do nosso tempo não seja a evolução das máquinas, mas a possibilidade de os próprios seres humanos se tornarem mecânicos. Quando a indiferença substitui a solidariedade, quando a competitividade elimina a compaixão e quando o egoísmo ocupa o espaço da generosidade, deixamos de perder apenas valores: perdemos parte daquilo que nos torna verdadeiramente humanos.
Ainda acredito, contudo, que nenhuma tecnologia será capaz de substituir um abraço sincero, um pedido de desculpas, um gesto de perdão ou uma palavra de incentivo. O amor continua sendo a única linguagem compreendida por todas as culturas, todas as épocas e todas as gerações. Ele atravessou guerras, pandemias, revoluções e crises porque pertence àquilo que existe de mais profundo na experiência humana.
Ao terminar esta reflexão, volto à pergunta que me inquietava no início. Talvez a palavra amornunca tenha desaparecido dos dicionários; quem sabe tenha apenas saído do nosso cotidiano. E, se quisermos um futuro menos violento, menos solitário e mais humano, talvez a maior revolução não esteja em criar novas tecnologias, mas em reaprender a conjugar diariamente o verbo mais difícil — e, ao mesmo tempo, o mais necessário de todos: amar.


