O Dia das Crianças, celebrado neste 12 de outubro, deveria ser um momento de alegria, esperança e gratidão. Deveria — mas não é para todos. Em um país que insiste em romantizar a infância enquanto fecha os olhos para suas dores, o que se vê é um cenário contraditório e doloroso: milhões de meninos e meninas crescendo em meio à fome, à violência e à falta de oportunidades.
O Brasil é um país que fala muito de futuro, mas investe pouco nas bases que o sustentam. Como esperar progresso quando a infância é tratada como estatística? Quando quase 40% das crianças vivem em situação de pobreza? Quando escolas carecem de estrutura, professores são desvalorizados e a evasão escolar aumenta silenciosamente? Quando crianças são exploradas no trabalho informal, obrigadas a trocar o brincar pelo sobreviver?
É fácil aplaudir campanhas publicitárias e fotos de sorrisos em redes sociais. Difícil é encarar a realidade nua e crua que percorre becos, favelas e zonas rurais esquecidas. Em cada esquina, há uma infância interrompida. Em cada cruzamento, um menino vendendo balas no semáforo. Em cada abrigo, uma menina sem lar. E o mais cruel é perceber que o tempo da infância não volta — e que cada ano perdido é um futuro roubado.
O país ainda falha em compreender que criança não é problema social: é prioridade nacional. O Estatuto da Criança e do Adolescente, que há décadas estabelece direitos fundamentais, tornou-se letra morta em muitos municípios. Faltam políticas públicas integradas, fiscalização efetiva e compromisso político real com o desenvolvimento infantil. O que existe, na maioria das vezes, são ações pontuais, projetos eleitoreiros e campanhas que duram o tempo de um post.
Enquanto isso, crescem os índices de depressão e ansiedade entre jovens. O bullying, o abuso, a negligência e o abandono continuam a ceifar sorrisos e sonhos. A geração que deveria estar aprendendo a acreditar no mundo está aprendendo a temê-lo. E quando um país permite que suas crianças percam a esperança, ele perde o próprio sentido de existir.
A infância não pode ser lembrada apenas em outubro. Cuidar das crianças é uma tarefa diária, coletiva e urgente. Requer investimento em educação de qualidade, alimentação saudável, cultura, esporte e saúde mental. Requer olhar humano, presença familiar e compromisso comunitário. A criança precisa ser ouvida, acolhida e respeitada — não apenas usada como símbolo em campanhas sazonais.
O Jornal O Defensor acredita que a transformação começa quando a sociedade deixa de naturalizar o descaso. Não há desculpa aceitável para a fome, o abandono ou a violência infantil. Há, sim, responsabilidade — e ela é de todos nós: Estado, famílias, escolas, igrejas, empresas e cidadãos. Cada criança invisível é um retrato do fracasso coletivo.
Neste Dia das Crianças, entre brinquedos e festas, é preciso olhar além do presente: é preciso olhar para o futuro. Um país que não protege suas crianças está condenado à repetição eterna de seus erros. A infância perdida de hoje será o adulto ferido de amanhã.
Que este editorial sirva como chamado, não como lamento. Ainda há tempo de mudar o rumo, mas isso exige coragem, empatia e vontade política. Porque o verdadeiro presente que o Brasil deve às suas crianças é um país onde sonhar não seja privilégio — e sim direito.



