Por: Rodrigo Panichelli*
O primeiro volante: rouba, entrega e organiza (mesmo sem poesia)
Chegamos à posição que talvez mais cause discussão. Afinal, quando se pensa em uma “seleção de todos os tempos”, o instinto é escalar os gênios da bola, os artistas, os camisas 10. Mas hoje, eu abro espaço para o operário. Para o cara que não precisa brilhar — porque ele faz os outros brilharem. Hoje, meu camisa 5, o primeiro volante da minha seleção, é Gennaro Gattuso.
Pode soar estranho, polêmico ou até heresia para alguns. Mas a beleza do futebol não está apenas na genialidade da finta ou na assistência milimétrica. Está também na entrega silenciosa, no desarme limpo, no combate que permite ao time respirar. Gattuso era isso. Um cão de guarda com alma italiana. Jogava com os dentes trincados e o coração na ponta da chuteira. Não era bonito de se ver, mas era fundamental para o time vencer.
No Milan dos anos 2000, cercado por gênios como Pirlo, Seedorf, Kaká e Inzaghi, ele era o pilar da proteção. Sabia que sua função era roubar a bola e entregar. Simples assim. E talvez por isso mesmo, tão genial dentro do seu papel. Taticamente disciplinado, fisicamente intenso e emocionalmente inflamável (no bom e no mau sentido), ele representava um tipo raro no futebol atual: o volante raiz.
No Brasil, formamos volantes com técnica refinada — Dunga, Mauro Silva, César Sampaio, Gilberto Silva. Todos poderiam estar aqui. Mas o que me faz escolher Gattuso é o contraste. Ele é o retrato do futebol europeu que entendeu que nem todo herói precisa usar capa. Alguns usam chuteiras sujas, calção rasgado e terminam o jogo sem camisa, gritando com os companheiros e agradecendo aos céus por mais uma vitória suada.
Gattuso não era mágico, mas era mestre na arte de destruir — e permitir que os mágicos criassem.
Na minha seleção, ele é o cara que protege o Maldini e o Aldair. Que entrega a bola redonda para os meias. Que, mesmo sem brilho, acende a luz do jogo.
Porque no futebol, como na vida, às vezes o mais importante é quem faz o trabalho sujo — com dignidade, entrega e lealdade.



