Entre cliques, curtidas e monetização, a inocência de milhares de crianças é vendida na internet enquanto plataformas e sociedade fecham os olhos
A internet, que um dia foi celebrada como território de possibilidades e liberdade de expressão, tornou-se também palco para um dos fenômenos mais perturbadores de nossa era: a adultização de crianças. O recente vídeo publicado pelo humorista Felca, expondo casos de sexualização e exploração infantil em redes sociais, não apenas chocou milhões de brasileiros, como também deixou evidente o quanto estamos falhando — como sociedade, como instituições e como indivíduos — em proteger aqueles que mais precisam de amparo.
O termo adultização não é mera figura de linguagem. Ele descreve, com precisão, a imposição precoce de comportamentos, linguagens e aparências adultas a crianças e adolescentes, muitas vezes em contextos que beiram — ou ultrapassam — a fronteira da exploração sexual. São corpos e rostos em desenvolvimento colocados à mercê do consumo alheio, incentivados por algoritmos que premiam o que choca, atrai e engaja.
Não é exagero afirmar que, para algumas plataformas, a proteção da infância não é prioridade. Ao contrário: a monetização de conteúdos com participação de menores, mesmo em contextos de evidente erotização, mostra que a lógica do lucro segue prevalecendo sobre qualquer noção de responsabilidade social. O caso exposto por Felca, envolvendo nomes como Hytalo Santos e Caroline Dreher, revela um ciclo perverso: vídeos de apelo sexual envolvendo menores geram visualizações; visualizações geram dinheiro; e o dinheiro retroalimenta a produção do conteúdo.
Mas a responsabilidade não se encerra nas mãos das big techs. Pais e responsáveis que autorizam — e, por vezes, incentivam — a participação de seus filhos nesse tipo de conteúdo, conscientes dos riscos e da conotação, cumprem papel ativo nessa cadeia de exploração. Não há ingenuidade que justifique expor um adolescente ou pré-adolescente a câmeras em contextos sugestivos. Da mesma forma, influenciadores que fazem dessa exposição uma estratégia de crescimento precisam ser responsabilizados civil e criminalmente.
E onde está o Estado? No melhor dos cenários, produzindo projetos de lei que raramente saem do papel. No pior, reagindo apenas quando a repercussão nas redes se torna impossível de ignorar. O posicionamento recente do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, ao anunciar a intenção de pautar projetos sobre o tema, é um passo, mas um passo tardio. O Brasil possui legislação robusta para proteção da infância, mas sua aplicação no ambiente digital ainda é tímida e fragmentada. Falta fiscalização, falta estrutura, falta vontade política de enfrentar diretamente as gigantes tecnológicas e o lobby que as protege.
Essa crise não é nova, mas está se agravando com a velocidade da informação. Cada curtida, cada compartilhamento e cada monetização de um vídeo que sexualiza crianças contribui para a normalização desse crime. A omissão coletiva é o que permite que a exploração persista. É preciso, portanto, um pacto social claro: a infância não é mercadoria. Não pode ser moeda de troca por fama, relevância digital ou retorno financeiro.
O debate que Felca reacendeu deve ir além da indignação momentânea. É hora de exigir medidas concretas: remoção imediata de conteúdos abusivos, penalização efetiva dos responsáveis, algoritmos que priorizem segurança e não engajamento, campanhas educativas para famílias e punições exemplares a quem se beneficiar, direta ou indiretamente, da sexualização de menores.
Enquanto tratarmos crimes contra crianças como “polêmicas” de internet e não como graves violações de direitos humanos, estaremos perpetuando um cenário em que a violência contra a infância é invisibilizada sob a estética da curtida. A sociedade não pode, sob nenhuma circunstância, se acostumar com isso. O silêncio, neste caso, não é neutralidade: é cumplicidade.



